eu lembro de como esse corpo que agora me prende entre pernas e braços se aproximou. estava lá. olhando a coisa toda de fora. era a coisa mais limpa no meio daquele lixo todo. era bonito. e triste. e aquele corpo ali não era de se jogar na lata do lixo. e tinha uns olhos fundos e pretos. um bicho assustado. e eu pensei - do jeito que eu gosto. e tinha cabelos compridos. bom de pegar. mas bonito. e foi se aproximando. e foi perguntando se podia sentar. e se podia beber. e se podia falar. que tava a fim de beijar. e foder. e eu disse. sim pra todas as coisas. por que eu tava ficando cansado de dizer não. eu tava cansado de achar que meu corpo era um templo. lugar intocável. lugar recusado. cansado de ouvir suas esquivas. eu tava cansado de lhe ver apagar minhas faíscas flamejantes quando eu me acendia. o meu corpo tava precisando de um gozo. bem sujo. mais podre. um gozo sem identidade. mais puto que fosse. mais descartável. eu lembro aqui no meio desse escuro.
aqui no escuro eu lembro de como nos pegamos na rua mesmo. ashes to my ashes funk to funky voltando pra casa cantando. e sorrindo entre uma sarjeta e outra. eu já não coordenava as mãos no outro. nem a boca na outra. sequer o pensamento. ou as paredes. e foda-se seu puritanismo camuflado. eu queria gozar. e fui arrastando para casa esse corpo no meio da avenida cheia de palmeiras centenárias. menino deus me livre dessa náusea branca cheia de hóstia nas mãos. numa das mãos eu arrastava o corpo com aquela boca que me beijava com a gana que eu queria. com a mão que me pegava nos flancos. na outra mão eu arrastava o resto do vinho barato para embebedar o que eu não queria pensar. eu não aguentava mais pensar. e nem aí se um vizinho me visse agora entrando no prédio grudado a esse corpo bêbado. bom dia. faça bem o seu cooper que eu vou fazer o meu. ha! eu trouxe o resto do jantar pra casa, sabe. um pedaço de carne na minha sacola. picanha. mal passada. a melhor picanha do mercado. vou comer e me lambuzar de sangue. vou meter meu garfo o mais fundo que possa. e sentir um prazer enorme. bom dia para um café da manhã reforçado. bem reforçado.
por que eu mereço um pouco de paz. tô querendo lembrar como é ser feliz.
mesmo que dure apenas até eu acordar e perceber no escuro a picanha se enroscando em mim. cheia de braços e pernas e pelos. eu quero ser feliz um bocado, assim, de manhã cedo, antes do suco de laranja habitual. nada de pãozinho com manteiga ligth.
mas
por que me desprender desse corpo agora. o pegajoso na minha boca não é vinho. e nesse escuro, a picanha. me abraça. e se esfrega. já não sou eu a querê-la. e eu penso, no escuro, que tá escuro mesmo. ninguém vai ver. nem eu. foda-se. a mesa tá posta. lençóis de 300 fios. seguro os talheres. eu mereço mais um pedaço. o melhor. mal passado, insisto. cravo os dentes. e sinto esse gosto de sangue escorrendo. e acho tudo tão bonito. e bom. e macio.
e
mais tarde. dispenso os resíduos no lixo. fio dental entredentes. a esponja com muita espuma nesse meu corpo meramente feliz. e esfrego. esfrego. esfrego. o resto do que não era vinho escoando ralo abaixo. esfrego. esfrego. esfrego. cremes no corpo todo. creme nas olheiras. um cheiro de ervas nas dobras pra apagar possíveis vestígios. vestir outra camisa social de punhos e colarinho bem, mas bem passados. indo ao teu encontro. de óculos escuros. bem escuros para esconder do dia o que a noite aprontou. e brincaremos. você posicionará sua cadeira de lado para mim, como de costume. eu falarei. você ouvirá. não, de fato, não trata-se de um relacionamento tradicional. mas o que eu vim dizer é que estou me dando alta. você me entende? vim sem gravata para evitar um provável suicídio. e minhas gravatas são de seda. seria um desperdício. e uma prova.
lembro
eu ainda não pedi a sobremesa. e ainda tenho fome. na calçada, um display. no menu tem sorvete de picanha. hum. nunca experimentei. vai ser hoje. quero esse gosto derretendo em minha boca. bem devagar. lento. no escuro. nesse escuro em que me apago todas as vezes que me aproximo e sou recusado sem cerimônia. não estou nos catálogos. não ericei os cabelos. esqueci os ritos. haverá vida em Marte?
agora
é tarde.
não me fale de você ao telefone. nem um pouco. para que eu não fique inexistindo dentro desse silêncio do outro lado de onde não consigo ver seus olhos. ou decifrando hieróglifos. não tenho mais esse tempo. ou vitalidade para esse tanto de rascunhos que você me oferece. a bateria tá acabando.
desligo. decido.
vou comprar um rebanho. e vai ter picanha à moda, com fritas, alho e óleo, ao molho, nas esquinas, nos molhes, nos cantos, no tapete. todos os dias, aqui em casa. no escuro. pra que eu me sinta bonito. vezenquando sempre.
ei!
garçon, me alcance um guardanapo.
por favor
retire esse peso de sobre o meu. e eu detesto lavar louça.
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