Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

O que é, afinal

E o que é a poesia

senão o múltiplo inexplicável


a impressão de imagens

sensação de estalos

nas lacunas do incompreensível




E o que é a poesia


senão a ânsia

de estar além

do onde estamos




O que é a poesia


senão a tentativa desesperada

anfitriã ao vão

entre real e sonho

onde todas as coisas

deveriam estar

para serem

Da água que meu rio me leva

Na curva do meu rio


rolam seixos

rolam seixos


que não se deixam criar limo


e a água límpida

na curva do meu rio


ganha força

e transparências


rolo

seixo

pedra

pau

folha

nuvem


sem me deixar levar

pelas aparências

da água que meu rio me lava

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Do contra

hoje

um de meus personagens

saltou do rascunho

discutiu comigo


queria por que queria

um final feliz


argumentou

folhando minha esperança



acatei sua decisão

Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Tentemos

Outro dia alguém me disse "eu não entendo poesia". Poesia não é para ser entendida. É uma sensação ao final do poema que nos surpreende, nos tira do chão pelo conjunto de sua construção, ritmo, desenho, assunto - eu disse.

Muito vaga minha tentativa de explicar o que não pode ser explicado. Hoje, 4 dias após o ocorrido, tentarei com que a Poesia na sua forma concreta, o poema, se denuncie. Creio, pois, esta seja sua função: denunciar-se ao leitor. Caso contrário, não é Poesia, terá sido mera tentativa.

Tentemos:





Essa rua de gentes


gentes

gentes

gentes


que andam na rua


rua

rua

rua


tilitam seus bolsos

aluzoaluguelotelefoneobancoaáguaogásomercadoamatrícula


na esquina

uma flor no concreto



Essa rua de gentes


gentes

gentes

gentes


que andam na rua


rua

rua

rua


tilitam seus bolsos

aluzoaluguelotelefoneobancoaáguaogásmercadomatrícula


à noite
essas gentes
em seus banheiros
lavam memórias do dia


Estalo!

Flor igual lhes brotou no ralo

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Abolição

Se a casa me revela

limpo os cômodos



os concretos vizinhos

sufocam-me

a me espiar por suas janelas abertas


as casas laterais

sedentas de vidas alheias

de vidas cheias

de vida

cansam-me


vasculhando

liberdade prisioneira



fecho a cortina

música!



no espaço reduzido

que resta

invento minhas personagens




desacorrentando-me

no papel

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Na lida

desconheço a autoria da imagem





Ensaboei a inveja

Centrifuguei meu desespero



roupa suja

roupa velha

roupa nova



Enxaguei meu cansaço



água fétida

água velha

água suja




No presente


passado


a limpo

A arte da guerra





Alinho as sombras


as sobras

vagas

abundam

me assombram



Votei pelo desarmamento

sou de paz


Porém

restaram-me cartuchos


misturo-me

camuflado de sombra

e

Disparo!


que se vão ao escuro

escuras

donde nunca despertado

Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Curtas em Casa

desconheço a autoria, mas na foto está impresso o crédito do site.




Inveja
Os azulejos decorados olham de revés o quadro na parede: ele é único.

No banheiro
O bidé sente-se estrangeiro: Mas fica feliz quando alguém pergunta: onde fica o toillete?

Contradição
A perna esquerda não entende por que a outra é direita.

Descanso
Ao redor da mesa as cadeiras estavam impacientes: queriam por que queriam cruzar as pernas.

Tristeza
A cebola chorava copiosamente: o alho fora esmagado pelo ensupidor.

Suicídio
A sala banhada em sangue. Ele cortara os pulsos...da camisa social.