Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010
Terça-feira, Fevereiro 02, 2010
Das cinzas às cinzas
acordo com esse par de pernas enroscadas nas minhas. de quem são esses braços que pesam sobre mim. e no meio, no meio, no meio de tudo essa música tocando dentro da minha cabeça misturada a um monte de vinho barato que deixou meus dentes pegajosos. que horas são. onde estou. de que tamanho é o escuro onde depus meu corpo bêbado. como eu me solto disso em que me prendo. eu lembro no meio da escuridão. eu lembro. você chegou de um jeito manso. leve quase, como quem não quer briga. ficou umas horas comigo. comeu a picanha. com sangue escorrendo, insistiu. engoliu o meu veneno diário, meu vômito da semana e me deixou na esquina. no catálogo, não sou a sua preferência. mais loiro, talvez. você me deixou na esquina com aquela vontade de beber mais e eu me enfiei no táxi. eu não estava só. trazia comigo o meu medo, companheiro de trincheiras. não olhei para trás. não olho para trás faz tempo. e ele disse que ali na outra esquina havia qualquer boteco aberto. meu medo disse ali na outra esquina tem qualquer boteco aberto. ele gritou em mim. você jamais pensaria que eu entraria num táxi como quem fosse para casa, assim, feito um anjo de mármore à espreita do que julgava morto em suposta lápide. meu medo gritou desce. e eu pedi - para essa merda desse carro que eu vou descer. e desci. e havia uns malucos na rua. e fazia calor. eu de calças compridas e camisa social pro jantar. punhos e colarinho bem passados. idiota! entrei no boteco, pedi um vinho. calor infernal. os caras me olhando. de onde saiu esse cara com esse camisa social a esta hora da madruga. e vai beber vinho o infeliz. agora eu lembro.
eu lembro de como esse corpo que agora me prende entre pernas e braços se aproximou. estava lá. olhando a coisa toda de fora. era a coisa mais limpa no meio daquele lixo todo. era bonito. e triste. e aquele corpo ali não era de se jogar na lata do lixo. e tinha uns olhos fundos e pretos. um bicho assustado. e eu pensei - do jeito que eu gosto. e tinha cabelos compridos. bom de pegar. mas bonito. e foi se aproximando. e foi perguntando se podia sentar. e se podia beber. e se podia falar. que tava a fim de beijar. e foder. e eu disse. sim pra todas as coisas. por que eu tava ficando cansado de dizer não. eu tava cansado de achar que meu corpo era um templo. lugar intocável. lugar recusado. cansado de ouvir suas esquivas. eu tava cansado de lhe ver apagar minhas faíscas flamejantes quando eu me acendia. o meu corpo tava precisando de um gozo. bem sujo. mais podre. um gozo sem identidade. mais puto que fosse. mais descartável. eu lembro aqui no meio desse escuro.
aqui no escuro eu lembro de como nos pegamos na rua mesmo. ashes to my ashes funk to funky voltando pra casa cantando. e sorrindo entre uma sarjeta e outra. eu já não coordenava as mãos no outro. nem a boca na outra. sequer o pensamento. ou as paredes. e foda-se seu puritanismo camuflado. eu queria gozar. e fui arrastando para casa esse corpo no meio da avenida cheia de palmeiras centenárias. menino deus me livre dessa náusea branca cheia de hóstia nas mãos. numa das mãos eu arrastava o corpo com aquela boca que me beijava com a gana que eu queria. com a mão que me pegava nos flancos. na outra mão eu arrastava o resto do vinho barato para embebedar o que eu não queria pensar. eu não aguentava mais pensar. e nem aí se um vizinho me visse agora entrando no prédio grudado a esse corpo bêbado. bom dia. faça bem o seu cooper que eu vou fazer o meu. ha! eu trouxe o resto do jantar pra casa, sabe. um pedaço de carne na minha sacola. picanha. mal passada. a melhor picanha do mercado. vou comer e me lambuzar de sangue. vou meter meu garfo o mais fundo que possa. e sentir um prazer enorme. bom dia para um café da manhã reforçado. bem reforçado.
por que eu mereço um pouco de paz. tô querendo lembrar como é ser feliz.
mesmo que dure apenas até eu acordar e perceber no escuro a picanha se enroscando em mim. cheia de braços e pernas e pelos. eu quero ser feliz um bocado, assim, de manhã cedo, antes do suco de laranja habitual. nada de pãozinho com manteiga ligth.
mas
por que me desprender desse corpo agora. o pegajoso na minha boca não é vinho. e nesse escuro, a picanha. me abraça. e se esfrega. já não sou eu a querê-la. e eu penso, no escuro, que tá escuro mesmo. ninguém vai ver. nem eu. foda-se. a mesa tá posta. lençóis de 300 fios. seguro os talheres. eu mereço mais um pedaço. o melhor. mal passado, insisto. cravo os dentes. e sinto esse gosto de sangue escorrendo. e acho tudo tão bonito. e bom. e macio.
e
mais tarde. dispenso os resíduos no lixo. fio dental entredentes. a esponja com muita espuma nesse meu corpo meramente feliz. e esfrego. esfrego. esfrego. o resto do que não era vinho escoando ralo abaixo. esfrego. esfrego. esfrego. cremes no corpo todo. creme nas olheiras. um cheiro de ervas nas dobras pra apagar possíveis vestígios. vestir outra camisa social de punhos e colarinho bem, mas bem passados. indo ao teu encontro. de óculos escuros. bem escuros para esconder do dia o que a noite aprontou. e brincaremos. você posicionará sua cadeira de lado para mim, como de costume. eu falarei. você ouvirá. não, de fato, não trata-se de um relacionamento tradicional. mas o que eu vim dizer é que estou me dando alta. você me entende? vim sem gravata para evitar um provável suicídio. e minhas gravatas são de seda. seria um desperdício. e uma prova.
lembro
eu ainda não pedi a sobremesa. e ainda tenho fome. na calçada, um display. no menu tem sorvete de picanha. hum. nunca experimentei. vai ser hoje. quero esse gosto derretendo em minha boca. bem devagar. lento. no escuro. nesse escuro em que me apago todas as vezes que me aproximo e sou recusado sem cerimônia. não estou nos catálogos. não ericei os cabelos. esqueci os ritos. haverá vida em Marte?
agora
é tarde.
não me fale de você ao telefone. nem um pouco. para que eu não fique inexistindo dentro desse silêncio do outro lado de onde não consigo ver seus olhos. ou decifrando hieróglifos. não tenho mais esse tempo. ou vitalidade para esse tanto de rascunhos que você me oferece. a bateria tá acabando.
desligo. decido.
vou comprar um rebanho. e vai ter picanha à moda, com fritas, alho e óleo, ao molho, nas esquinas, nos molhes, nos cantos, no tapete. todos os dias, aqui em casa. no escuro. pra que eu me sinta bonito. vezenquando sempre.
ei!
garçon, me alcance um guardanapo.
por favor
retire esse peso de sobre o meu. e eu detesto passar roupa.
eu lembro de como esse corpo que agora me prende entre pernas e braços se aproximou. estava lá. olhando a coisa toda de fora. era a coisa mais limpa no meio daquele lixo todo. era bonito. e triste. e aquele corpo ali não era de se jogar na lata do lixo. e tinha uns olhos fundos e pretos. um bicho assustado. e eu pensei - do jeito que eu gosto. e tinha cabelos compridos. bom de pegar. mas bonito. e foi se aproximando. e foi perguntando se podia sentar. e se podia beber. e se podia falar. que tava a fim de beijar. e foder. e eu disse. sim pra todas as coisas. por que eu tava ficando cansado de dizer não. eu tava cansado de achar que meu corpo era um templo. lugar intocável. lugar recusado. cansado de ouvir suas esquivas. eu tava cansado de lhe ver apagar minhas faíscas flamejantes quando eu me acendia. o meu corpo tava precisando de um gozo. bem sujo. mais podre. um gozo sem identidade. mais puto que fosse. mais descartável. eu lembro aqui no meio desse escuro.
aqui no escuro eu lembro de como nos pegamos na rua mesmo. ashes to my ashes funk to funky voltando pra casa cantando. e sorrindo entre uma sarjeta e outra. eu já não coordenava as mãos no outro. nem a boca na outra. sequer o pensamento. ou as paredes. e foda-se seu puritanismo camuflado. eu queria gozar. e fui arrastando para casa esse corpo no meio da avenida cheia de palmeiras centenárias. menino deus me livre dessa náusea branca cheia de hóstia nas mãos. numa das mãos eu arrastava o corpo com aquela boca que me beijava com a gana que eu queria. com a mão que me pegava nos flancos. na outra mão eu arrastava o resto do vinho barato para embebedar o que eu não queria pensar. eu não aguentava mais pensar. e nem aí se um vizinho me visse agora entrando no prédio grudado a esse corpo bêbado. bom dia. faça bem o seu cooper que eu vou fazer o meu. ha! eu trouxe o resto do jantar pra casa, sabe. um pedaço de carne na minha sacola. picanha. mal passada. a melhor picanha do mercado. vou comer e me lambuzar de sangue. vou meter meu garfo o mais fundo que possa. e sentir um prazer enorme. bom dia para um café da manhã reforçado. bem reforçado.
por que eu mereço um pouco de paz. tô querendo lembrar como é ser feliz.
mesmo que dure apenas até eu acordar e perceber no escuro a picanha se enroscando em mim. cheia de braços e pernas e pelos. eu quero ser feliz um bocado, assim, de manhã cedo, antes do suco de laranja habitual. nada de pãozinho com manteiga ligth.
mas
por que me desprender desse corpo agora. o pegajoso na minha boca não é vinho. e nesse escuro, a picanha. me abraça. e se esfrega. já não sou eu a querê-la. e eu penso, no escuro, que tá escuro mesmo. ninguém vai ver. nem eu. foda-se. a mesa tá posta. lençóis de 300 fios. seguro os talheres. eu mereço mais um pedaço. o melhor. mal passado, insisto. cravo os dentes. e sinto esse gosto de sangue escorrendo. e acho tudo tão bonito. e bom. e macio.
e
mais tarde. dispenso os resíduos no lixo. fio dental entredentes. a esponja com muita espuma nesse meu corpo meramente feliz. e esfrego. esfrego. esfrego. o resto do que não era vinho escoando ralo abaixo. esfrego. esfrego. esfrego. cremes no corpo todo. creme nas olheiras. um cheiro de ervas nas dobras pra apagar possíveis vestígios. vestir outra camisa social de punhos e colarinho bem, mas bem passados. indo ao teu encontro. de óculos escuros. bem escuros para esconder do dia o que a noite aprontou. e brincaremos. você posicionará sua cadeira de lado para mim, como de costume. eu falarei. você ouvirá. não, de fato, não trata-se de um relacionamento tradicional. mas o que eu vim dizer é que estou me dando alta. você me entende? vim sem gravata para evitar um provável suicídio. e minhas gravatas são de seda. seria um desperdício. e uma prova.
lembro
eu ainda não pedi a sobremesa. e ainda tenho fome. na calçada, um display. no menu tem sorvete de picanha. hum. nunca experimentei. vai ser hoje. quero esse gosto derretendo em minha boca. bem devagar. lento. no escuro. nesse escuro em que me apago todas as vezes que me aproximo e sou recusado sem cerimônia. não estou nos catálogos. não ericei os cabelos. esqueci os ritos. haverá vida em Marte?
agora
é tarde.
não me fale de você ao telefone. nem um pouco. para que eu não fique inexistindo dentro desse silêncio do outro lado de onde não consigo ver seus olhos. ou decifrando hieróglifos. não tenho mais esse tempo. ou vitalidade para esse tanto de rascunhos que você me oferece. a bateria tá acabando.
desligo. decido.
vou comprar um rebanho. e vai ter picanha à moda, com fritas, alho e óleo, ao molho, nas esquinas, nos molhes, nos cantos, no tapete. todos os dias, aqui em casa. no escuro. pra que eu me sinta bonito. vezenquando sempre.
ei!
garçon, me alcance um guardanapo.
por favor
retire esse peso de sobre o meu. e eu detesto passar roupa.
Quinta-feira, Janeiro 28, 2010
The catcher in the rye
RIO - Morreu na quarta-feira, aos 91 anos, J.D. Salinger, o legendário autor, herói da juventude e fugitivo da fama cujo livro "O apanhador no campo de centeio" chocou e inspirou um mundo do qual ele gradativamente foi se afastando. As informações são do jornal "Washington Post".
Salinger morreu de causas naturais em sua casa, declarou seu filho através de um comunicado divulgado pelo agente literário do escritor. Há várias décadas, ele vivia em um exílio voluntário em uma pequena casa na remota cidade de Cornish, no estado de New Hampshire, nos EUA.
"O apanhador no campo de centeio" com seu imortal protagonista adolescente, o rebelde Holden Caulfield, foi lançado em 1951, época de conformidade com a Guerra Fria e do nascimento da adolescência moderna.
Holden logo se tornou o mais famoso anti-herói da literatura americana desde Huckleberry Finn. O número da venda do romance é impressionante - mais de 60 milhões de cópias no mundo todo - e seu impacto é incalculável. Décadas após sua publicação, o livro continua sendo uma expressão determinante do mais americano dos sonhos - nunca crescer.
Salinger escrevia para adultos, mas adolescentes de todos os lugares se identificaram com os temas tratados no romance, como alienação, inocência e fantasia, sem contar com a sorte de ter a palavra final. "Apanhador" apresenta o mundo como uma luta sempre injusta entre a bondade dos jovens e a corrupção dos mais velhos.
PS: Bob Dylan compôs esta canção inspirado na obra principal de Salinger.
“Some people feel the rain. Others just get wet.” – Bob Dylan
“Some people feel the rain. Others just get wet.” – Bob Dylan
Sexta-feira, Janeiro 15, 2010
A melhor canção. A melhor bebida.
I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see
And be what I want to be
When I think more than I want to think
Do things much I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you
Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me
I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine I feel unsteady,
where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac wine,
I feel unready for my love...
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see
And be what I want to be
When I think more than I want to think
Do things much I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you
Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me
I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?
Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine I feel unsteady,
where's my love?
Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac wine,
I feel unready for my love...
Quinta-feira, Janeiro 14, 2010
Nova correspondência
Olá!
Você lembra no filme O Mágico de Oz, quando um tornado levanta a casa de Dorothy e a leva para o mundo de Oz? Eram cenas em preto e branco. Em seguida, a casa cai sobre a bruxa do Oeste. Daí para diante o filme abre-se em uma paleta de matizes de todas as cores. Nesse instante os moradores de Oz saem de seus esconderijos para conferir quem cometera a incrível façanha de matar a bruxa do Oeste. Esses habitantes são os Muchkins, anões, que acolhem Dorothy com uma dança em celebração e agradecimento pelo feito.
Um dos anões recrutados para o filme era um trabalhador rural do estado do Iowa - isso por volta de 1940 - e nunca em sua vida ele tinha visto outro anão. Ao chegar no set de filmagem deparou-se com muitos anões que também participariam do filme. E sentiu uma alegria imensa. A alegria de pertencer a algo, a alguém.
Ser único e diferente faz difícil a busca por alguém compatível. Eu gostaria de sentir o que aquele anão sentiu, outra vez, pois julgo haver sentido ao te encontrar em novembro de 2000.
Espero uma resposta sua. Talvez eu não lhe escreva mais, embora me seja doloroso controlar. Desta forma, suponho, eu sangre esse seu silêncio atroz.
Abraços
Você lembra no filme O Mágico de Oz, quando um tornado levanta a casa de Dorothy e a leva para o mundo de Oz? Eram cenas em preto e branco. Em seguida, a casa cai sobre a bruxa do Oeste. Daí para diante o filme abre-se em uma paleta de matizes de todas as cores. Nesse instante os moradores de Oz saem de seus esconderijos para conferir quem cometera a incrível façanha de matar a bruxa do Oeste. Esses habitantes são os Muchkins, anões, que acolhem Dorothy com uma dança em celebração e agradecimento pelo feito.
Um dos anões recrutados para o filme era um trabalhador rural do estado do Iowa - isso por volta de 1940 - e nunca em sua vida ele tinha visto outro anão. Ao chegar no set de filmagem deparou-se com muitos anões que também participariam do filme. E sentiu uma alegria imensa. A alegria de pertencer a algo, a alguém.
Ser único e diferente faz difícil a busca por alguém compatível. Eu gostaria de sentir o que aquele anão sentiu, outra vez, pois julgo haver sentido ao te encontrar em novembro de 2000.
Espero uma resposta sua. Talvez eu não lhe escreva mais, embora me seja doloroso controlar. Desta forma, suponho, eu sangre esse seu silêncio atroz.
Abraços
Quarta-feira, Janeiro 13, 2010
Do Grande ditador
"Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos. Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam. Estamos saindo da treva para a luz. Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os Homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah. A alma do Homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah. Ergue os olhos."
Quarta-feira, Janeiro 06, 2010
Quarta-feira, Dezembro 30, 2009
2010
Balanço de final de ano. Arrepio.
Não é a vida continuidade?
O ano finda. A vida continua. Persiste, brava, resistente. O ano, a data, o numeral mudam. A vida muda todo o dia, qualquer dia, se assim quisermos. Se esse, de fato, for nosso objetivo constante. Qualquer dia será o dia certo para mudar a mobília de lugar, o tempero da comida, os lençóis da cama, as companhias, de casa, de jeito, e mais do que sempre urgente mudar o pensamento. Todo o dia há de ser o dia de romper o padrão. Haverá necessidade de uma mudança no calendário para que nos forcemos a isso? Não creio.
No fundo, me desculpem os que "balançam", esse negócio de contabilizar perdas e ganhos no final de ano me parece covardia. Auto-sabotagem. Desculpa, pois, para ocultar do espelho o que ele revela conforme a luz que incide sobre a forma que se vê refletida. Cabe a nós dosar a quantidade de luz. Ou ausência dela.
Meu final de ano não admite balanços. Comporta, sim, a vontade louca de me jogar na vida com o mesmo olhar que conduzi meus dias anteriores: descobrir sempre, mudar o que a vida insiste em manter feito pedra dentro e fora de mim. E deixar que o rio corra com a mesma força com que me leva por sumidouros e braços de rios a conhecer.
Não à ambição. Sim ao trabalho. Sempre outros caminhos.
Este final de ano será diferente de todos os outros. Desplanejei o roteiro. Desarmei os equipamentos. Rompi a redoma. Vou nu para a estrada e quiçá em seu trajeto eu descubra algumas roupas novas para vestir, ou despir, de todo o limite que me impõe, por vezes, essa mesma estrada.
Vou gastar uns trocados pensando que amanhã não será. Acordarei o dia como se eu fosse virgem de novidades. Lavarei meu cansaço prenhe de angústia acumulada nas águas que correm. E vou dizer sobre o hoje que ele é hoje. Presente.
Desejo que nos seja novo o olhar. E os pensares. Os gestos. E o amar. A cada dia, como sempre o foi. E que, talvez, tenhamos esquecido disto.
Sejamos renovados. E felizes por ainda termos esse direito.
Não é a vida continuidade?
O ano finda. A vida continua. Persiste, brava, resistente. O ano, a data, o numeral mudam. A vida muda todo o dia, qualquer dia, se assim quisermos. Se esse, de fato, for nosso objetivo constante. Qualquer dia será o dia certo para mudar a mobília de lugar, o tempero da comida, os lençóis da cama, as companhias, de casa, de jeito, e mais do que sempre urgente mudar o pensamento. Todo o dia há de ser o dia de romper o padrão. Haverá necessidade de uma mudança no calendário para que nos forcemos a isso? Não creio.
No fundo, me desculpem os que "balançam", esse negócio de contabilizar perdas e ganhos no final de ano me parece covardia. Auto-sabotagem. Desculpa, pois, para ocultar do espelho o que ele revela conforme a luz que incide sobre a forma que se vê refletida. Cabe a nós dosar a quantidade de luz. Ou ausência dela.
Meu final de ano não admite balanços. Comporta, sim, a vontade louca de me jogar na vida com o mesmo olhar que conduzi meus dias anteriores: descobrir sempre, mudar o que a vida insiste em manter feito pedra dentro e fora de mim. E deixar que o rio corra com a mesma força com que me leva por sumidouros e braços de rios a conhecer.
Não à ambição. Sim ao trabalho. Sempre outros caminhos.
Este final de ano será diferente de todos os outros. Desplanejei o roteiro. Desarmei os equipamentos. Rompi a redoma. Vou nu para a estrada e quiçá em seu trajeto eu descubra algumas roupas novas para vestir, ou despir, de todo o limite que me impõe, por vezes, essa mesma estrada.
Vou gastar uns trocados pensando que amanhã não será. Acordarei o dia como se eu fosse virgem de novidades. Lavarei meu cansaço prenhe de angústia acumulada nas águas que correm. E vou dizer sobre o hoje que ele é hoje. Presente.
Desejo que nos seja novo o olhar. E os pensares. Os gestos. E o amar. A cada dia, como sempre o foi. E que, talvez, tenhamos esquecido disto.
Sejamos renovados. E felizes por ainda termos esse direito.
Segunda-feira, Dezembro 28, 2009
Mínimo
Veio de sinais
Em fogos de artifícios
Romperam-se hímens
o homem pisava na lua
outra vez
Sem gravidade
Em fogos de artifícios
Romperam-se hímens
o homem pisava na lua
outra vez
Sem gravidade
Sábado, Dezembro 26, 2009
O caçador de andróides
Tyrell – Estou surpreso por não ter me procurado antes.
Roy – Não é fácil encarar o próprio criador.
T – E o que deseja dele?
R – O criador pode consertar a criação?
T – Gostaria de ser modificado?
R – Pensei em algo um pouco mais radical.
T – Qual seria o problema?
R – Morte.
T – Morte? Temo que esteja um pouco fora de minha alçada, eu...
R – Eu quero mais vida, pai!
T – Os fatos da vida. Fazer alterações na evolução de um sistema orgânico
é fatal. Um código genético não pode ser alterado depois de estabelecido.
R – Por que não?
T – Porque no segundo dia de incubação quaisquer células que tenham
sofrido mutações de reversão, dão origem a colônias reversas, como ratos aban-
donando o navio. Aí o navio afunda.
R – E se usar a combinação EMS?
T – Já tentamos. O etil-metanosulfato é um potente agente alcalinizante
e mutagênico. Ele criou um vírus tão letal que a cobaia morreu na hora.
R – Então uma proteína que bloqueie as funções celulares.
T – Não impediria a duplicação, mas duplicaria o ácido ribonucléico. O
novo DNA levaria às mutações e você teria um vírus de novo. Mas, claro, esta
discussão é acadêmica. Você foi feito o melhor possível.
R – Mas não para durar.
T – A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo, e você ardeu com muito brilho, Roy. Olhe para você. Você é o filho pródigo. É um ser fenomenal.
R – Eu fiz... coisas questionáveis.
T – E também coisas extraordinárias. Comemore o tempo que tem!
R – Nada que impeça ao Deus da biomecânica levar você ao paraíso.
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