Embora, aos poucos, todos por ali se acostumassem com o fato de dois homens viverem juntos, ainda assim, uma recusa espontânea esclarecia-se em cada olhar, em cada cochicho pelos corredores, em cada cumprimento severo pela manhã, quando trocavam beijos à porta despedindo-se para a rotina diária. Resignados, aboliram a troca de carinhos habitual para jamais, nunca incomodar aos vizinhos, mesmo que, com isso, lenta e aterradoramente, se lhes acometesse uma estranha sensação de
Claustrofobia
Atrás de mim a porta bate. Odores cítricos e amadeirados sobrepõem-se ao cheiro de mofo estagnado na sala do diminuto apartamento. A chave é retirada da fechadura. No centro do ambiente mantenho-me quieto. Respiração moderada. Ouço os passos dele descendo o primeiro lance de escadas, o segundo e, no último ... outra vez o ruído de chaves. Em seguida, range a porta da correspondência. Fica sempre para depois o conserto desses pequenos defeitos no prédio. A porta do escaninho range de novo. Seus passos ganham o saguão e se lançam na sonora agitação urbana de um fim de tarde. Atento a algum ponto na parede. Um ponto sem importância. Nenhum ponto. Qualquer ponto.
Sons da rua invadem novamente os corredores. Um pisar de passos fortes, pesados; dois mais amenos e um terceiro pontiagudo e sutil alcançam a escadaria. Batidas seqüenciais na balaustrada do corrimão. A campainha soa no andar acima. Passos ágeis. Destrava-se a tranca, a fechadura. Desprendem-se correntes. Tilintam sininhos. Uma lagartixa transita pela parede atraindo minha atenção. Pestanejo. A vinheta de um programa popular de TV provém do lado oposto, no piso superior. Som de calçados jogados ao canto. O chuveiro é ligado. A luz de meu abajur arrefece. Fica sempre para depois a substituição dos disjuntores. Água espiralando pelo encanamento. De outro lugar talheres batem na louça em redemoinho. Colheres são remexidas no interior de panelas. Do exterior, ignições, aceleração, freadas, sirenes. Há tempos a mola da entrada principal do edifício está cansada. Pisares contínuos, equilibrados em salto agulha silenciam frente à minha porta . Batidinhas rotineiras de unhas cobertas com esmalte barato contra a madeira. A “manicura, pedicura e cabeleireira à sua disposição” vem dar um oi. Vem afiar a língua em comentários sobre a vizinhança e vasculhar a intimidade dos “rapazes do 301”.
Sobre a mesa a lagartixa enrosca-se no papel do pão. Devora pedaços de alface que escapam para fora do sanduíche, encharcando suas patas no café esparramado sobre o tampo. Nos cacos de xícara, um punhado de açúcar.
“Sem açúcar” — ele insistia comigo — “sem açúcar!”. Quatro colheres eram suficientes para mim. Eu sempre esquecia e adoçava os dois cafés. Esquecia e adoçava os dois.
Sequer fora provada a mistura de mel e manteiga sobre os biscoitos. Fatias de queijo ressecam em um prato. O café pinga no chão. Os toques insistentes à porta emudecem. Em tempo, alarde a voz esganiçada:
— Lindinha! — sons de chaves e ferrolhos liberando a entrada no apartamento em frente — Vem co’a mamãe meu neném! — Latidos enfezados respondem. A porta fora do esquadro raspa o chão, enquanto a mesma voz repete:
— Surpresa! Meu bem! Mamãe trouxe surpresa!
Surdinas irrompem o espaço aéreo de hora em hora. Os matizes do dia atenuam ao redor. No apartamento superior, mesmo com a TV ligada, um CD é posto para rodar. Não tão afinada quanto Louis Armstrong, uma voz acompanha-o: and I think to myself what a wonderful world. Cadeiras são arrastadas no quarto andar. Louça espatifa-se ao chão. No pavimento inferior, passos rápidos. O encanamento treme no interior das paredes, puxando água para as torneiras. Preciso chamar um encanador. Faz tempo que preciso. Um estrondo tira do prumo uma reprodução mal feita de Os Comedores de Batatas de Van Gogh. A “manicura – pedicura – cabeleleira de plantão” tem o hábito de empurrar a grade de ferro num único movimento das ancas. Ouço pedaços do reboco caindo na circulação entre o meu apartamento e o dela. Dia desses, o vão atravessa a parede.
Através da janela, azul, vermelho, azul, vermelho, azul, intercalam-se luminosos no reflexo do assoalho. O chuveiro é desligado. Latidos alvorotados, esfuziantes confundem-se com a voz esfuziante e alvorotada da mulher. Tagarelando e latindo, ambas ressoam pelos degraus. Outros passos encontram-nas. Reconheço-os. Latidos ampliam-se, escapam para fora, ganham a calçada. Uma pequena aranha suspende-se acrobática na altura de meus olhos. Entre as patas de tão habilidosa equilibrista observo a pintura da parede. Semana que vem cobrirei os detalhes que eu e ele fizemos naquela tarde de domingo. Branco! É isso. Branco está na moda!
Vibra o assoalho sob meus pés. No andar de baixo, a máquina de lavar bate no botijão de gás durante todo o processo. Do primeiro piso ouço uma canção: o barquinho vai, a tardinha cai... Ruídos da cidade insistem. A agulha arranha a suavidade de Nara Leão. A aranha sobe e desce diversas vezes, diante de meu nariz. O cuco anuncia a hora sem que eu consiga contar suas badaladas. Buzinas congestionam meus tímpanos.
O telefone toca. Permaneço imóvel. Ele não ligaria. Jamais carregava consigo um cartão telefônico, fichas, dinheiro. O aparelho continua chamando. Passos no primeiro lance de escadas. O telefone insiste. Um passo após outro se aproximam da porta atrás de mim. A secretária eletrônica é acionada e grava uma mensagem. Grava o silêncio. O silêncio. Não há saliva suficiente em minha garganta. Engulo em seco. O chacoalhar de chaves outra vez. Transpiro. Pausa. Ofego. Quero a chave reconhecendo seu lugar no segredo da fechadura....e um barquinho a desliz... e um barquinho a desliz...e um barquinho a desliz.. Suas mãos quentes e macias não giram o aço da maçaneta. O ranço no ar permanece. Seus passos recomeçam. Tomam outra direção. Afastam-se, diminuem, somem.
A cachorra retorna latindo. A mulher retorna latindo. Seus ganidos ecoam pelo poço do elevador parado há tanto tempo. Qualquer hora chamo a manutenção para dar uma olhada nisso. Um disparo lá fora, na rua. Vibra o chão, o teto. Burburinhos e desvarios perpassam os limites da sala sem desacomodar a pequena lagartixa. Além da viga de concreto sobre minha cabeça o mundo maravilhoso de Louis Armstrong emudece. Pisadas ansiosas nas lajotas do saguão, saltam os degraus de par em par. Aproximam-se. A voz do zelador vara as fibras da madeira da porta, avançando contra minha nuca. Suas palavras reverberam entre o martelo e a bigorna de meu ouvido.
— Chamem a polícia! O garoto fugiu, queria uns trocados — acudia — o moço tá lá caído numa poça de sangue.
A descarga no banheiro do vizinho é acionada; fica enchendo por uma eternidade. O fio de seda que sustenta a aranha arrebenta. A lagartixa desliza sobre a gema de ovos fritos que preparei para Moisés. Moisés banhado em vermelho sangue, entre o mar de carros, no meio da travessia.
Cerro os olhos expandindo as narinas, inspirando possíveis notas amadeiradas e cítricas. Preciso dizer eu te amo qualquer dia desses. Preciso...Mas sempre deixo para depois, deixo sempre para depois...