Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

Intercâmbio de brevidades

Há braços

que não se agrilhoam

Entrelaçam-se

em fuga

à síntese

do que lhes atordoa


imagem sem autoria

Para Cláudio Eugênio da Luz. Parceiro de pa-lavrar o mundo com alguma coisa boa.
http://canteirodeobras.blogspot.com/

Conjugando

Instalação no Paço da Artes - SP, em 01 de Julho de 2005. Criação Marina Reis, Mariana Meloni e Juliana Pikel






Dei-te linha

teçamos, presumi: nós

no alinhavo Imperativo

Afirmativo plural

pessoa

enreda tu: nó

singular fuga

(em)aranha


E sucumbí Perfeito

do Indicativo à tua teia

Vermelho

foto by Athanazio

Teima

sobre meu sangue

que, de ti

amar me

queima

Bravo!

Acrílico sobre tela de Carmen Hidalgo de Cisneros


Entregaste a mim as vísceras

em um ensaio preciso

Do qual não necessito


Quero sim, no clímax do espetáculo,

jogar a ti minhas rosas apartadas de espinhos

Com cisão (para Rubens da Cunha)

imagem de autoria desconhecida


Presumi fogos de artifícios

da hora pretendida eterna


E o espetáculo sangrou em segundos


PS: Rubens da Cunha é colega de sangue na escrita. http://casadeparagens.blogspot.com/

Dois Espasmos (juntos ou em separado. Ambos no inverno de meu fevereiro)

foto by Anitra Redlefsen


Abre tua boca

e me deixa

adentrar

língua

palavra pouca

que, de mim, ecoa.

.........................

Calma!

Amo-te devagarinho

para que não sufoques

no que de mim a saliva

anseia:

Alma

Ossos

desconheço a autoria da imagem


Desculpa-me

se aos pedaços

recolho-me pela casa

Quebraste o espelho

onde eu

radiografia

Premissas

foto by Fantas

Chama

meu nome dentro da noite

acende-me

ao te envolver nos braços

e enfiar minha língua por tudo em todo

onde

de ti a mim

amor

incandescia

Silêncios

foto by Michal Macku


Toque-me agora

E me sobreviva náufrago

neste mar

em que

Nada

O título está no final

Sabes

hoje, tua voz reverberou no martelo ouvido meu

uma palavra

destas que ficam por aí soprando

batia, evadindo-me ao labirinto da imaginação:


Paraíso!


imagem sem autoria

Sem imagem, embora tatuagem

Sim

cavei tua indecência

na busca desesperada de alguma pureza

Mas nas reentrâncias

teu corpo havia já

se poluído de coisa crua

Desafogo-me

deste suspiro beijo

ante o medo

E me enfio em escafandros

recuso-me superfícies

Domingo, Fevereiro 26, 2006

Necessário

foto by Paulo Cesar Guerra


Nós dois:

ósculos e amplexos

Eu sózinho:

des-con-junto

( )

foto by João Figueiredo

Cato palavras
Cato palavras
Cato palavras

Muda ausência tua entre parênteses

Não escrevo

nada

peixe

Falésias

foto by Luís Lobo Henriques


Peixe, peixe, peixinho

livra-me do aquário

em que me encerro

para que

nada

naufrague

em

Ah! Mar nosso.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Exclusivo Conclusivo (para Fe)

imagem by Jovelino Matos Almeida


Sim

É bem provável que as tempestades cessem

quando minha mão nua

pousar sobre a tua

e minha boca errante

se encante mais na língua palavra que eu te professe

Sopa

foto by Carlos Carreto

Sorvo, aos poucos, poesia vida que me ofereces


E haja pratos, copos, haja talheres para tanta mesa.

Hemisférios

imagem sem autoria

Este fio que se estende ao longo do mapa. Dois hemisférios âmagos em chamas que ardem para dentro. Tateio. Tateias. Busca da ponta que (n)os segura. E do caos desequilibra-me a pacata vida. No meio da sala, fevereiro de aromas em nós amarrados. Confundo-me. Gesto clichê de me abrir em janelas e deixar que o vento colha alguma asa solta. Pousam-me nos braços. Quem sabe chego a ti, um dia.

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Deep

foto by Paulo Feitais


Mergulho além do fora

Ou transbordo dentro

Amarantine (ao som de Enia)

foto by me em Santo Antônio de Lisboa - Florianópolis 2006


Havia alguma coisa lá fora

que fazia brotar alguma coisa

aqui dentro.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Um conto meu publicado no livro Contos de Antologia -- 24 e revisado em 2006

Embora, aos poucos, todos por ali se acostumassem com o fato de dois homens viverem juntos, ainda assim, uma recusa espontânea esclarecia-se em cada olhar, em cada cochicho pelos corredores, em cada cumprimento severo pela manhã, quando trocavam beijos à porta despedindo-se para a rotina diária. Resignados, aboliram a troca de carinhos habitual para jamais, nunca incomodar aos vizinhos, mesmo que, com isso, lenta e aterradoramente, se lhes acometesse uma estranha sensação de


Claustrofobia




Atrás de mim a porta bate. Odores cítricos e amadeirados sobrepõem-se ao cheiro de mofo estagnado na sala do diminuto apartamento. A chave é retirada da fechadura. No centro do ambiente mantenho-me quieto. Respiração moderada. Ouço os passos dele descendo o primeiro lance de escadas, o segundo e, no último ... outra vez o ruído de chaves. Em seguida, range a porta da correspondência. Fica sempre para depois o conserto desses pequenos defeitos no prédio. A porta do escaninho range de novo. Seus passos ganham o saguão e se lançam na sonora agitação urbana de um fim de tarde. Atento a algum ponto na parede. Um ponto sem importância. Nenhum ponto. Qualquer ponto.
Sons da rua invadem novamente os corredores. Um pisar de passos fortes, pesados; dois mais amenos e um terceiro pontiagudo e sutil alcançam a escadaria. Batidas seqüenciais na balaustrada do corrimão. A campainha soa no andar acima. Passos ágeis. Destrava-se a tranca, a fechadura. Desprendem-se correntes. Tilintam sininhos. Uma lagartixa transita pela parede atraindo minha atenção. Pestanejo. A vinheta de um programa popular de TV provém do lado oposto, no piso superior. Som de calçados jogados ao canto. O chuveiro é ligado. A luz de meu abajur arrefece. Fica sempre para depois a substituição dos disjuntores. Água espiralando pelo encanamento. De outro lugar talheres batem na louça em redemoinho. Colheres são remexidas no interior de panelas. Do exterior, ignições, aceleração, freadas, sirenes. Há tempos a mola da entrada principal do edifício está cansada. Pisares contínuos, equilibrados em salto agulha silenciam frente à minha porta . Batidinhas rotineiras de unhas cobertas com esmalte barato contra a madeira. A “manicura, pedicura e cabeleireira à sua disposição” vem dar um oi. Vem afiar a língua em comentários sobre a vizinhança e vasculhar a intimidade dos “rapazes do 301”.
Sobre a mesa a lagartixa enrosca-se no papel do pão. Devora pedaços de alface que escapam para fora do sanduíche, encharcando suas patas no café esparramado sobre o tampo. Nos cacos de xícara, um punhado de açúcar.
“Sem açúcar” — ele insistia comigo — “sem açúcar!”. Quatro colheres eram suficientes para mim. Eu sempre esquecia e adoçava os dois cafés. Esquecia e adoçava os dois.
Sequer fora provada a mistura de mel e manteiga sobre os biscoitos. Fatias de queijo ressecam em um prato. O café pinga no chão. Os toques insistentes à porta emudecem. Em tempo, alarde a voz esganiçada:
— Lindinha! — sons de chaves e ferrolhos liberando a entrada no apartamento em frente — Vem co’a mamãe meu neném! — Latidos enfezados respondem. A porta fora do esquadro raspa o chão, enquanto a mesma voz repete:
— Surpresa! Meu bem! Mamãe trouxe surpresa!
Surdinas irrompem o espaço aéreo de hora em hora. Os matizes do dia atenuam ao redor. No apartamento superior, mesmo com a TV ligada, um CD é posto para rodar. Não tão afinada quanto Louis Armstrong, uma voz acompanha-o: and I think to myself what a wonderful world. Cadeiras são arrastadas no quarto andar. Louça espatifa-se ao chão. No pavimento inferior, passos rápidos. O encanamento treme no interior das paredes, puxando água para as torneiras. Preciso chamar um encanador. Faz tempo que preciso. Um estrondo tira do prumo uma reprodução mal feita de Os Comedores de Batatas de Van Gogh. A “manicura – pedicura – cabeleleira de plantão” tem o hábito de empurrar a grade de ferro num único movimento das ancas. Ouço pedaços do reboco caindo na circulação entre o meu apartamento e o dela. Dia desses, o vão atravessa a parede.
Através da janela, azul, vermelho, azul, vermelho, azul, intercalam-se luminosos no reflexo do assoalho. O chuveiro é desligado. Latidos alvorotados, esfuziantes confundem-se com a voz esfuziante e alvorotada da mulher. Tagarelando e latindo, ambas ressoam pelos degraus. Outros passos encontram-nas. Reconheço-os. Latidos ampliam-se, escapam para fora, ganham a calçada. Uma pequena aranha suspende-se acrobática na altura de meus olhos. Entre as patas de tão habilidosa equilibrista observo a pintura da parede. Semana que vem cobrirei os detalhes que eu e ele fizemos naquela tarde de domingo. Branco! É isso. Branco está na moda!
Vibra o assoalho sob meus pés. No andar de baixo, a máquina de lavar bate no botijão de gás durante todo o processo. Do primeiro piso ouço uma canção: o barquinho vai, a tardinha cai... Ruídos da cidade insistem. A agulha arranha a suavidade de Nara Leão. A aranha sobe e desce diversas vezes, diante de meu nariz. O cuco anuncia a hora sem que eu consiga contar suas badaladas. Buzinas congestionam meus tímpanos.
O telefone toca. Permaneço imóvel. Ele não ligaria. Jamais carregava consigo um cartão telefônico, fichas, dinheiro. O aparelho continua chamando. Passos no primeiro lance de escadas. O telefone insiste. Um passo após outro se aproximam da porta atrás de mim. A secretária eletrônica é acionada e grava uma mensagem. Grava o silêncio. O silêncio. Não há saliva suficiente em minha garganta. Engulo em seco. O chacoalhar de chaves outra vez. Transpiro. Pausa. Ofego. Quero a chave reconhecendo seu lugar no segredo da fechadura....e um barquinho a desliz... e um barquinho a desliz...e um barquinho a desliz.. Suas mãos quentes e macias não giram o aço da maçaneta. O ranço no ar permanece. Seus passos recomeçam. Tomam outra direção. Afastam-se, diminuem, somem.
A cachorra retorna latindo. A mulher retorna latindo. Seus ganidos ecoam pelo poço do elevador parado há tanto tempo. Qualquer hora chamo a manutenção para dar uma olhada nisso. Um disparo lá fora, na rua. Vibra o chão, o teto. Burburinhos e desvarios perpassam os limites da sala sem desacomodar a pequena lagartixa. Além da viga de concreto sobre minha cabeça o mundo maravilhoso de Louis Armstrong emudece. Pisadas ansiosas nas lajotas do saguão, saltam os degraus de par em par. Aproximam-se. A voz do zelador vara as fibras da madeira da porta, avançando contra minha nuca. Suas palavras reverberam entre o martelo e a bigorna de meu ouvido.
— Chamem a polícia! O garoto fugiu, queria uns trocados — acudia — o moço tá lá caído numa poça de sangue.
A descarga no banheiro do vizinho é acionada; fica enchendo por uma eternidade. O fio de seda que sustenta a aranha arrebenta. A lagartixa desliza sobre a gema de ovos fritos que preparei para Moisés. Moisés banhado em vermelho sangue, entre o mar de carros, no meio da travessia.
Cerro os olhos expandindo as narinas, inspirando possíveis notas amadeiradas e cítricas. Preciso dizer eu te amo qualquer dia desses. Preciso...Mas sempre deixo para depois, deixo sempre para depois...

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

Tatuagem



Porque te escreve sobre minha pele

Esse rascunho papel amassado teima ser original

Insetos

foto by Gonçalo Borges Dias


Foi no quarto
naquele dia morno

Cupins!

Passei a olhar com curiosidade o vão que se abria

supondo oca a estrutura que a ti...segura

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Do que me ocorreu enquanto tu desapercebias

foto by

Desculpe se aqui, no meio da tarde quente, nessa esquina dobrada ao acaso, no suor de minha alma cansada, no doer desse respeito que insisto a ti, eu leve minha mão contra o teu peito evitando que te aproximes e me abraces (pois convém a ti esquentar a certeza de que me tens como e quando necessitas).

Minha mão, em posição estratégica, gesto ensaiado e decorado milimetricamente, sente aquilo que tu não escutas...

Outra miragem


foto by Pedro Miguel Costa


Levantaste a cumeeira
encobriste com telhas

Queixava-se: abrigo

E os vagalumes
rondam
do lado
de fora...

Queixo-me eu: estrelas!

Duas miragens

foto by Paulo Figueira

Uma:

Virias?

Já não sei.

Pelas adjacências da casa
vazavas pelas frestas...

no inverso de como eu desejava

Duas:

Eu

Reformava a casa
Reformava a casa
Reformava a casa

em algum canto parede concreto
haveria de auscultar teu coração

Utópicas

foto by David Guimarães

Gritavas alegrias quando em bando

na esquina
nas ramblas
nas bandas
nos braços
e abraços de outros...


E eu. minguante, a te olhar de longe

Que fosses feliz, mesmo que eu não o fôsse...

Conta-gotas

foto by Vasco Oliveira

Sucumbi ao toque
do sol escaldante
em meu deserto

Acreditei que em algum lugar houvesse água

Morri de sede na manhã vagabunda
quando teu corpo não soprava em direção alguma

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

O que amo, o que sou...

foto by Gonçalo Borges Dias

O silêncio da casa, o olho que brilha, um suspiro aliviado, o gosto de um beijo, o cheiro de livro antigo, Outono, tempestades, vermelho, banho de chuva, Cosme e Damião, capim-limão, cheiro de terra molhada, lamber o prato sujo de feijão, a coceira do cotonete no ouvido, David Hockney, cascata, barulho de chuva, andar com os pés descalços, chinelos, cuecas samba-canção, bolitas, cinco-marias, colares, nome Antônio, nome Maria, caleidoscópios, flamboyants, cheiro de gente, conversa de criança, limão, fotografia em P&B, calça jens surrada, ler sentado no vaso domingo de manhã, mantras budistas, lápis-de-cor, fruta de conde, galinhas, varal, senhor dos ventos, bambu, sementes, pescaria, Vitória-régia, fundo do mar, papel em branco e caneta nanquim, palco vazio, palco cheio de vida, travesseiros de penas, toque de mãos que se tocam por acaso, queijo com goiabada, geléia de morangos, Arnaldo Antunes, sutilezas...

"Dinheiro devia morar no coração, onde tudo é de graça..." (Fernanda Porto)

Sábado, Fevereiro 11, 2006

Motim



As canetas recusam-se a liberar tinta. E os papéis...Ah! Os papéis permanecem sobre a mesa, em branco...

Viro coisa



Viro coisa outra quando enrolas a língua no canto da minha boca...
quadro by Gustavo Carbonel


Respirava ao meu lado

E, desatinado, mal sabia eu o que fazer com tanto ar...

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Dos barcos

Deposition by Wayne Forte

Certos barcos nascem pra navegar sozinhos
Bandos são dados aos pássaros
Pois que desejam o céu
Não se proliferam em ilhas
Buscam continentes e voam longe
Vez que outra retornam
Por causa do frio

E, sendo porto, eu dôo sem âncoras...
My life in a valise by Wayne Forte

Relacionamentos:

A casa do receio de ser avulso...

Suscetibilidades:

O avulso receio de ser Casa...

Continuando...a pedido da Valéria do pensar é um ato




Doía-me dentro a ausência das tuas mãos
E eu te deixei no navio que nos levava a sonhar
Pra me jogar no único mar que me acolhe
As palavras que ancoro no teclado