Domingo, Dezembro 31, 2006

Reconstrução




Voltaremos de cara nova em 2007... se não der pau no PC.

Sábado, Dezembro 30, 2006

Oz

 


O homem de lata não tinha um coração, e cantava esta canção do Arnaldo Antunes.


... Socorro alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emoção pequena,
qualquer coisa

Qualquer coisa que se sinta,
tem tanto sentimento,
deve ter algum que sirva...


Agora, o homem de lata tem um coração. Ganhou do Vítor, em 2006. E canta, do Vítor Ramil (com o gênero editado, claro), assim:


Vou te vi. Ali deserto de qualquer alguém.
Penso, logo irei. Que seja antes meu que de outrem.
Quando o vento fez do teu cabelo. Um dom que Deus te deu.
Claro que eu rirei. Ao vendo o que outro alguém não viu.

Vou andei. E me chegando assim te cercarei.
Digo, aqui tô eu. Que te amo e às suas pernas quero bem.
Já que estamos nós. Te sugeri-me então o que fazer.
Claro que eu beijei. Ao tendo o que outro alguém não quis.

Vou fiquei. No teu chegado e tu chegado ao meu.
Penso, grande é Deus. Um paraíso prum sujeito ateu.
E pensando assim. farei aquilo que o teu gosto quis.
Claro, eu já ganhei de volta. Tudo o que eu quiser.

E tudo isso. Foi no mês que vem.
Foi quando eu chegar. Foi na hora em que eu te vi.
E mais que tudo. Foi no mês que vem.
Foi quando eu chegar. Na hora em que eu te quis. Posted by Picasa

Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

Um lugar bacana

imagem by Marcelo Frazão



Compartilho com vocês um lugarzinho que descobri:

Museu do Essencial e do Além disso.

One more Kiss, dear

Emocionei-me, ontem, assistindo ao Especial Elis Regina que a Rede Globo preparou para finalizar o ano. Nunca teremos melhor intérprete. Recordo a canção que embalou meus melhores anos, quando eu era adolescente e estudava em Pelotas: Como nossos pais, composta por Belchior.

Outro dia me disseram que eu não choro, que me faço forte, que convém debulhar umas lágrimas vezenquando. Eu resisto. O tempo não me dá tempo para chorar. Mas ontem, eu me dei esse tempo. Não chorei apenas pela lembrança da Elis, mas pelas lembranças que suas canções trazem. De um tempo em que as coisas eram diferentes, a vida era uma grande descoberta. Esperem! Eu não estou velho. Estou saudosista, nostálgico... seguindo as orientações e chorando um pouco. “Se lhes for dado um passado, será criada uma base para a emoção”, é a resposta do policial Bryant, que convoca Deckard para a caçada aos andróides, no filme Blade Runner - o caçador de andróides, dirigido por Ridley Scott, em 1982.

Meu choro, meu texto, nada têm a ver com final de ano. Estou vacinado contra emoções falsas, há tempos. Estou chorando porque vivi Elis, John Lennon, e a cena mais bela do cinema, quando Roy Batty, o último andróide Replicante, nos momentos finais do filme, diz: "Moments lost in time like tears in the rain".

Mas não pensem que meu choro é tristeza. Não. Tô feliz porque vi coisas que, como o andróide Roy, "muitos de vocês humanos não acreditariam!" Eu vi e vivi coisas belas, muito belas. E continuo a vivê-las com a mesma intensidade com que choro ao ouvir Elis cantar como neste vídeo (ignorem a qualidade do áudio e da imagem, mas prestem atenção na letra e na emoção da rapariga).


Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Tecer, medir e cortar

desconheço a autoria da imagem


Acordei pensando nas Moiras. As três Deusas do Destino que, segundo a mitologia grega, teciam o fio da vida dos homens na escuridão de uma gruta e seu trabalho não poderia se desfeito por nenhum outro deus, nem mesmo por Zeus. A partir do momento que o destino do homem estava tecido, nada mais poderia alterá-lo. Caso fossem desafiadas - o que acontecia algumas vezes -, eram acometidas de hibrys, ou seja, arrogânca aos olhos dos deuses. O indivíduo em questão, quase sempre um herói, não poderia fugir de seu destino e seria punido com veemência pelos deuses por tentar ultrapassar os limites estabelecidos pelas tais fiandeiras.


Tudo bem que elas fiquem lá, tecendo nossos destinos no escuro, mas nós, quase sempre heróis, de cá, na luz clara que o sol pinta, podemos dar um jeito de desamarrar os nós que elas fazem ou amarrar pedaços cortados por elas na hora errada.

Vou fazer apenas um pedido pra elas: em 2007, teçam fios longos e resistentes pra todo o mundo, tá!

Mãos na obra!

Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

Ah, vó*

não cega

achega

venta

cortina



cabelo em bandó



polvilho

na testa

transpira

farinha



Moinho

Catavento

Alquimia


massa tempo

a mão cozia


pão-de-ló


piá



ria


na varanda que gemia cadeiras





* Este poema nasceu após eu ver uma das fotos de Mauro Giller (link ao lado, no topo). Ao ver a foto, um sopro de abraço tocou-me: Carolina Schiffer Bernardi, minha avó paterna. Quando eu era guri, ela sempre me recebia com gostosas broas e biscoitos de polvilho. Seu último sopro de vida aconteceu há alguns anos, diante do fogão à lenha, enquanto assava pão. Se o Mauro me autorizar, publicarei a foto dele aí em cima.

shshshshshshsh

foto extraída do blog de Adelaide Amorim



Cada braço de vento

sopra

assim


Cada vento sopra

abraço

sim


Cada abraço venta

em mim

um sopro

de braço


e tudo sopra
e tudo abraça


depois vai

ao vento

como no sopro

último


ou o primeiro
Blog bacanérrimo de um fotógrafo curitibano, aí ao lado, no topo da lista. Visite e desfrute.

Boas Gandaias, Hare Krishna, Mungunzê, Bundalelê, Furubum, Evoé, Axé para todos!

Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

A superhiperpessoaquerida

Eu sempre desconfio de pessoas queridas demais, educadas demais, prestativas demais, risonhas demais, populares demais. Sempre desconfiei de gente que adentra qualquer ambiente tentando ser a mais simpática possível, auxiliando quem a acompanha, desde pegar o refri, puxar a cadeira, explicar o cardápio, o procedimento para servir, e explicar pro dono do lugar que devolve a garrafa assim que consumir o líquido, que ele não precisa se preocupar, que...

E faz tudo isso num tom de voz alto, com a boca escancarada em sorrisos montados, para que todos os presentes a ouçam e saibam "o quão boa ela é". Gesticula muito, se desloca lépida e faceira pelo ambiente e, sempre que fala, usa estrategicamente sua visão periférica para certificar-se que alguém, de algum ponto, a observa. Afinal, showzinho sem platéia, não tem graça.

No fundo, creio que, e essa é uma teoria sem nenhuma pesquisa em livros ou sites de Psicologia, este tipo de pessoa alimenta uma profunda necessidade de afeto, autoafirmação. Faz, para que façam por ela. O "toma lá dá cá" de cada dia nos dai hoje. E a cobrança tarda mas não falha. Podem apostar!

Eu posso estar enganado, mas na dúvida continuarei desconfiando desse tipo de pessoa. Desculpem-me, dentes que se mostram a todo instante, um dia mordem. E dói.

Moral da história:

mais vale muitas pessoas reservadas na mão do que uma cacarejando

Dois em parceria

Ontem, 20, dia poeticamente produtivo. Entre uma e outra ceva, saíram estes dois poemas aí embaixo, em parceria. O primeiro, Vítor começou aos nove anos e, ontem, completamos o poema "concretista". O segundo... bem, o segundo deixo que fale por si mesmo.



I


Sótão


Tão

Sozinho


Tão



Tão inho


SSSSSSSSSSS



II


ou se fuma

ou não se fuma


se fomo

nóis fumo



Si fu





Estamos com outra obra coletiva em andamento, na área de Artes Plásticas. Em breve (assim que eu fotografá-la decentemente), a postarei aqui para deleite de todos vocês.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Sem contra-indicações

painting animation by Scott Hutchison





a palavra

nasce

no céu da boca


vinga


na saliva

da língua



libero neurotransmissores

movo verbetes linguais

no teu dicionário



beijo



preescrevo

osculum e suavium



remédio

etmologicamente

diário

Camaleão Hipermoderno

foto by Pedro Verçosa



eles fizeram a guerra

vestiram-me a farda de manchas

para que eu

me confundisse na paisagem



Marcha soldado
Cabeça de papel



a mãe abotou o casaco

o pai lustrou os coturnos



Marcha soldado
Cabeça de porongo



durante a marcha

às trincheiras

desfiz-me da roupa

abandonei o pelotão

de iguais



Se não marchar
direito




mataria a mim mesmo


Camuflado


para matar

Govinda Hare e outras reticências

capa do livro de Márcia Xavier (imagens) e Arnaldo Antunes (poemas)



Nesta época do ano minha mail-box enche de mensagens poéticas, cartões cheios de amor, imagens de pombos em revoada, estrelinhas. É o "espírito natalino" que, na maioria das vezes, faz as pessoas se aproximarem (das lojas).

Eu fiz um acordo com quem amo: nada de presentes comprados. Talvez, algum presente feito pelas próprias mãos. Sinceramente, pegar a grana, encher o tanque de gasolina da minha carroça e sair pra conhecer algum lugar. Qualquer lugar em muito boa companhia não tem preço. Longe dessa neve fake, dessa roupa vermelha quente demais, longe dessa barba por fazer há séculos, longe dessa ilusão que inventaram pra fazer a gente ficar no vermelho. Vermelho só o coração com o título Campeão do Mundo.

Eu já considero ter recebido um bom presente. Tem um nome, pensa e me faz pensar, tem um corpo bem gostosinho, um sorriso e um olhar tão lindos que eu perco o jeito. E tem sido a melhor companhia há 3 meses, a completar dia 24. Meio piegas esse parágrafo, eu sei, mas "tô nem aí", vezenquando me bate uma coisa romântica do tipo mandar flores. Eu não mando, por que não gosto de flor arrancada, cortada. Morre em seguida, murcha. perde a beleza. Sou mais auditivo, saca? Fico com o que é dito, ouvido, por ambos. E agora eu tô escutando Arnaldo Antunes. Escolhi esta canção em vez de mandar flores:


se tudo pode acontecer

se pode acontecer

qualquer coisa

um deserto florescer

uma nuvem cheia não chover


pode alguém aparecer

se acontecer de ser você

um cometa vir ao chão

um relâmpago na escuridão


e a gente caminhando

de mão dada

de qualquer maneira

Eu quero que esse momento

dure a vida inteira

e além da vida

ainda de manhã

se for eu e você

se assim acontecer



Então, é isto. Felicidade é urgente. É agora. E Dia 24, na hora do brinde com minha família, desejarei voltar pra casa, abrir mais uma vez o presente que recebi há 3 meses e ver que eu sou o Campeão do Mundo... por que fora da embalagem ele fica mais lindo a cada dia.

E Hare Krishna pra todos!

Domingo, Dezembro 17, 2006

O valor das coisas

Hoje vou abrir parênteses na poesia pra falar de algo que, só agora, aos 41 anos, descobri. Foi uma descoberta forçada, pois o destino desfolhou minha conta bancária, meus contratantes não me pagam e, somando o que tenho pra receber, descobri que posso viver bem durante o verão sem ter de me preocupar com as contas. Mas ocorre que os contratantes não me pagam e chega uma hora que as economias vão pro brejo. E a minha hora chegou. Hoje!

Mas, como me é peculiar, sempre à beira do abismo eu tento descobrir um jeito de olhar a paisagem e ver que ainda resta beleza, em algum lugar. Um amigo diz que eu não preciso bancar o Super-homem a todo instante. Mas se eu não fizer isso, quem vai fazer por mim? Ninguém. Vivo só e desde adolescente trabalho pra pagar minhas contas, todas: IPTU, IPVA, IORAIOQUEOPARTA.

Pois bem. Na sexta-feira, com os cachês a receber, em atraso, descobri que estava zerado. Nunca fui de ficar contando os mirréis, sempre fui um gastador compulsivo. Gosto de bons restaurantes, cinema uma vez por semana, café com amigos em lugares bacanas, roupas legais, perfumes, dvds, cds e etc. Quando vou ao supermercado gasto sem a mínima noção do valor das coisas. Gosto de comer bem, e não sou do tipo que vasculha as prateleiras em busca de produtos mais "em conta". Mas, como eu disse, o destino desfolhou e me aprontou. Ou melhor, eu me aprontei, por que eu moro sozinho, pago minhas contas em dia e prezo muito pra não ter meu nome naquelas listas negras da Serasa e SPC e coisas do gênero, mas eu esbanjo, e o único responsável pelo ZERO na minha conta, sou eu, por que se você deve, todo mundo te cobra, mas se te devem... a resposta é sempre a mesma: "tem que esperar".

Enfim, na sexta-feira percebi que, por total descuido, eu já havia usado meu limite de crédito para cobrir algumas despesas. Eu nunca usei meu limite. Na hora, eu entrei em pânico. Vivo só e não posso, em hipótese alguma, contar com ajuda de outros. Quando o assunto é dinheiro, todo mundo foge. Parentes então, são os primeiros a saírem correndo com mil desculpas.

Ainda me restavam alguns trocados no bolso, que DEVEM durar até a próxima sexta-feira, quando, segundo um dos meus contratantes, receberei. Tomara! Senão, Natal na M.

Contando os trocados na carteira, respirei fundo e fui ao supermerado, pois precisava de comida para o finde e não havia nada na geladeira. Nunca há. Eu sempre como fora. Comer e depois lavar a louça é a pior parte de quem mora só. Até o café da manhã eu tomo, quero dizer, tomava, em uma padaria bacaninha do Menino Deus.

Continuando... eu fui ao supermercado e levei apenas dez reais. Com esse trocado eu compraria cigarros (R$2,80) e o restante traria em gêneros alimentícios. Comprei uma cebola, uma cenoura, um quilo de arroz, duas chuletas e papel higiênico (por motivos óbvios)e gastei sete reais e dois centavos. Sobrou dezoito centavos. Ufa!

Senti-me envergonhado ao chegar no caixa do supermercado. Aquela gente do Menino Deus comprando muito e eu somando pra ver se daria pra pagar minhas comprinhas. Mas enfim, eu precisava economizar e um amigo que estava comigo me falou que vida de solteiro é isso, que não precisa ter vergonha de comprar uma cebola, uma cenoura. Se comprar bastante estraga e é dinheiro posto fora. Meu amigo tem razão. Ele é mais novo do que eu e já entende de economia doméstica. Afff!

Em casa havia polpa de tomate, que me recusara a comprar no super porque um tomate, apenas um, custa em torno de cinquenta centavos. Paguei e saí pensando na comidinha gostosa que eu iria fazer. Hum, delícia! Eu precisava dar um up em mim mesmo pra pilotar o fogão.

Pasmem! Com os produtos adquiridos eu fiz o almoço e ainda sobrou a quantia certa pra janta. O papel higiênico eu não comi, é claro, usei um pedaço 4h após o almoço. Enquanto defecava pensei que, se eu economizar o papel, vai ser o dinheiro mais bem empregado, pois um metro de papel higiênico custa em média um centavo. Tá certo que a marca adquirida não é Neve, mas limpa!


Hoje, domingo, final de tarde, voltei ao supermercado. Precisava de alguns ingredientes para fazer a janta. Para o almoço, eu havia comprado dois pedaços de frango assado (comi apenas um) e uma porção de polenta frita. No total gastei R$3,50. Peguei três reais pra comprar cigarro e mais R$3,95. Na verdade eu não ia comprar comida, eu estava com muita, mas muita vontade de comer algo doce e decidi sair pra pegar o cigarro e um pacote de Chokito ou Prestígio, meus chocolates favoritos. Quando entrei no super fui direto à prateleira de doces. Para minha surpresa, a embalagem com 04 custava R$3,75. Putz! Que caro, eu pensei. Resolvi comprar uma cebola (a do dia anterior eu havia usado toda), três pêssegos (que são doces, e eu adoro), um litro de iogurte para a manhã seguinte e um sabonete (o meu estava no fim). A cebola custou vinte e um centavos e eu achei isso ótimo, pois uso meia cebola por refeição. Eu tinha frango assado do almoço, usaria meia cebola com frango desfiado, mais polpa de tomate e teria uma janta excelente, feita na hora. Além do que, da noite anterior sobrara a metade de uma cenoura que daria pra fazer a salada.

Fui ao caixa e esgacei um sorriso quando vi o valor total a pagar: R$3,82. A moça do caixa devolveu-me cinco centavos para os R$3,85 que eu havia lhe passado. Ela não tinha troco. Voltei pra casa com dez centavos de economia mais o troco do cigarro.

No trajeto de volta pra casa eu estava satisfeito. Eu havia gasto pouco, praticamente o que ganho de direitos autorais na venda de um livro e meio. Mas eu gasto esse mesmo valor pra comprar cigarros. Eu fumo um maço e meio por dia. Fiz o cálculo e percebi que, se eu não fumasse, a exemplo do meu amigo, eu poderia comer esse dinheiro todo. E comer bem, em casa, com o tempero que eu gosto, sentado confortavelmente diante do precipício.

Bem, eu estou escrevendo esse relato pensando em um depoimento do Globo Repórter, que outro dia entrevistou uma senhora com três filhos que vive com apenas um salário mínimo. Mas eu não estou escrevendo isso para vocês lerem, e não pretendo viver com um salário mínimo. Eu não conseguiria. Eu estou escrevendo para eu mesmo ler e aprender a usar melhor meu dinheiro. Eu preciso aprender com Victor Hugo, autor francês, que escreveu em seu poema Desejo Primeiro "desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga Isto é meu, só para que fique bem claro quem é o dono de quem".


A exemplo do meu amigo, vou parar de fumar. Investirei o valor correspondente em pêssegos, melancias, maçãs, que me farão ver que a paisagem além do precipício pode ser bem doce e saudável.

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

imagem by Christopher Kenworthy



cato

flores

pra despejar

sobre teu corpo


copo que mata

minha sede


eu te bebo

durante o dia

água

que não murcha

pétala

na vitrina

de ofertas

Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

Eu vi

as ruas

estreitas

para tanto

dos cantos

onde se escondem

quantos


sob os viadutos

eles se esfregam



ela, bêbada vida miserável

ele, engomado terno alinhado

concreto armado


Meses depois...


ela, prenhe, no semáforo

pede um trocado


ele, no ar condicionado do carro

vira-lhe o rosto


as ruas

são estreitas

para tanto

dos lados

atravessados

na garganta da cidade


fato

foda

filho

consumado