Hoje vou abrir parênteses na poesia pra falar de algo que, só agora, aos 41 anos, descobri. Foi uma descoberta forçada, pois o destino desfolhou minha conta bancária, meus contratantes não me pagam e, somando o que tenho pra receber, descobri que posso viver bem durante o verão sem ter de me preocupar com as contas. Mas ocorre que os contratantes não me pagam e chega uma hora que as economias vão pro brejo. E a minha hora chegou. Hoje!
Mas, como me é peculiar, sempre à beira do abismo eu tento descobrir um jeito de olhar a paisagem e ver que ainda resta beleza, em algum lugar. Um amigo diz que eu não preciso bancar o Super-homem a todo instante. Mas se eu não fizer isso, quem vai fazer por mim? Ninguém. Vivo só e desde adolescente trabalho pra pagar minhas contas, todas: IPTU, IPVA, IORAIOQUEOPARTA.
Pois bem. Na sexta-feira, com os cachês a receber, em atraso, descobri que estava zerado. Nunca fui de ficar contando os mirréis, sempre fui um gastador compulsivo. Gosto de bons restaurantes, cinema uma vez por semana, café com amigos em lugares bacanas, roupas legais, perfumes, dvds, cds e etc. Quando vou ao supermercado gasto sem a mínima noção do valor das coisas. Gosto de comer bem, e não sou do tipo que vasculha as prateleiras em busca de produtos mais "em conta". Mas, como eu disse, o destino desfolhou e me aprontou. Ou melhor, eu me aprontei, por que eu moro sozinho, pago minhas contas em dia e prezo muito pra não ter meu nome naquelas listas negras da Serasa e SPC e coisas do gênero, mas eu esbanjo, e o único responsável pelo ZERO na minha conta, sou eu, por que se você deve, todo mundo te cobra, mas se te devem... a resposta é sempre a mesma: "tem que esperar".
Enfim, na sexta-feira percebi que, por total descuido, eu já havia usado meu limite de crédito para cobrir algumas despesas. Eu nunca usei meu limite. Na hora, eu entrei em pânico. Vivo só e não posso, em hipótese alguma, contar com ajuda de outros. Quando o assunto é dinheiro, todo mundo foge. Parentes então, são os primeiros a saírem correndo com mil desculpas.
Ainda me restavam alguns trocados no bolso, que DEVEM durar até a próxima sexta-feira, quando, segundo um dos meus contratantes, receberei. Tomara! Senão, Natal na M.
Contando os trocados na carteira, respirei fundo e fui ao supermerado, pois precisava de comida para o finde e não havia nada na geladeira. Nunca há. Eu sempre como fora. Comer e depois lavar a louça é a pior parte de quem mora só. Até o café da manhã eu tomo, quero dizer, tomava, em uma padaria bacaninha do Menino Deus.
Continuando... eu fui ao supermercado e levei apenas dez reais. Com esse trocado eu compraria cigarros (R$2,80) e o restante traria em gêneros alimentícios. Comprei uma cebola, uma cenoura, um quilo de arroz, duas chuletas e papel higiênico (por motivos óbvios)e gastei sete reais e dois centavos. Sobrou dezoito centavos. Ufa!
Senti-me envergonhado ao chegar no caixa do supermercado. Aquela gente do Menino Deus comprando muito e eu somando pra ver se daria pra pagar minhas comprinhas. Mas enfim, eu precisava economizar e um amigo que estava comigo me falou que vida de solteiro é isso, que não precisa ter vergonha de comprar
uma cebola,
uma cenoura. Se comprar bastante estraga e é dinheiro posto fora. Meu amigo tem razão. Ele é mais novo do que eu e já entende de economia doméstica. Afff!
Em casa havia polpa de tomate, que me recusara a comprar no super porque um tomate, apenas um, custa em torno de cinquenta centavos. Paguei e saí pensando na comidinha gostosa que eu iria fazer. Hum, delícia! Eu precisava dar um
up em mim mesmo pra pilotar o fogão.
Pasmem! Com os produtos adquiridos eu fiz o almoço e ainda sobrou a quantia certa pra janta. O papel higiênico eu não comi, é claro, usei um pedaço 4h após o almoço. Enquanto defecava pensei que, se eu economizar o papel, vai ser o dinheiro mais bem empregado, pois um metro de papel higiênico custa em média um centavo. Tá certo que a marca adquirida não é Neve, mas limpa!
Hoje, domingo, final de tarde, voltei ao supermercado. Precisava de alguns ingredientes para fazer a janta. Para o almoço, eu havia comprado dois pedaços de frango assado (comi apenas um) e uma porção de polenta frita. No total gastei R$3,50. Peguei três reais pra comprar cigarro e mais R$3,95. Na verdade eu não ia comprar comida, eu estava com muita, mas muita vontade de comer algo doce e decidi sair pra pegar o cigarro e um pacote de Chokito ou Prestígio, meus chocolates favoritos. Quando entrei no super fui direto à prateleira de doces. Para minha surpresa, a embalagem com 04 custava R$3,75. Putz! Que caro, eu pensei. Resolvi comprar uma cebola (a do dia anterior eu havia usado toda), três pêssegos (que são doces, e eu adoro), um litro de iogurte para a manhã seguinte e um sabonete (o meu estava no fim). A cebola custou vinte e um centavos e eu achei isso ótimo, pois uso meia cebola por refeição. Eu tinha frango assado do almoço, usaria meia cebola com frango desfiado, mais polpa de tomate e teria uma janta excelente, feita na hora. Além do que, da noite anterior sobrara a metade de uma cenoura que daria pra fazer a salada.
Fui ao caixa e esgacei um sorriso quando vi o valor total a pagar: R$3,82. A moça do caixa devolveu-me cinco centavos para os R$3,85 que eu havia lhe passado. Ela não tinha troco. Voltei pra casa com dez centavos de economia mais o troco do cigarro.
No trajeto de volta pra casa eu estava satisfeito. Eu havia gasto pouco, praticamente o que ganho de direitos autorais na venda de um livro e meio. Mas eu gasto esse mesmo valor pra comprar cigarros. Eu fumo um maço e meio por dia. Fiz o cálculo e percebi que, se eu não fumasse, a exemplo do meu amigo, eu poderia comer esse dinheiro todo. E comer bem, em casa, com o tempero que eu gosto, sentado confortavelmente diante do precipício.
Bem, eu estou escrevendo esse relato pensando em um depoimento do Globo Repórter, que outro dia entrevistou uma senhora com três filhos que vive com apenas um salário mínimo. Mas eu não estou escrevendo isso para vocês lerem, e não pretendo viver com
um salário mínimo. Eu não conseguiria. Eu estou escrevendo para eu mesmo ler e aprender a usar melhor meu dinheiro. Eu preciso aprender com Victor Hugo, autor francês, que escreveu em seu poema Desejo Primeiro "desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga
Isto é meu, só para que fique bem claro quem é o dono de quem".
A exemplo do meu amigo, vou parar de fumar. Investirei o valor correspondente em pêssegos, melancias, maçãs, que me farão ver que a paisagem além do precipício pode ser bem doce e saudável.