Segunda-feira, Julho 31, 2006

Não pedi nenhum mistério

apenas

pauta em branco

compor-nos

tanto




nessa clave

Sol

Verde

Cabeça

asa


Braços

laço


Pés

chão


Corpo

casa


rua rua rua rua
cabeças, braços, pés
in comunicação

Universos ímpares
Idiomas díspares


Quem de vós
libertou as jaulas
apertou
nós
e a voz
no congestionamento


Vai passar

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Rascunho

Amor prolixo

Amor

pro

lixo

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Manhã comestível





Está chovendo

Bom clichê para não escrever

voltar pra cama

e ronronar

na nuca de quem se ama

Domingo, Julho 23, 2006

Corvos e Girassóis





Pincelas

minha vida

com as cores

que esqueci


Mas não borres

não se apaga fácil

o que acumula

sob a pele

Superstição





De quatro

folhas

você

me veio

às mãos

feito trevo

na sorte

das horas

em que morriam

os antúrios

do meu jardim

Casinha branca

Foto by Hakki Ceylan

Música de fundo: Rainbow River de Vashti Bunyan




Ao som

das cordas

tua viola

me acorda

em ti


tua música

cheiro de pão

framboesas

me acolhem


e giro

como a água

no moinho

que empresta ao moinho

a força

para que a vida

se mova

Quinta-feira, Julho 20, 2006

Amigo






Compreendeu-me quando sumi

Nunca quis fosse eu miragem


Ouviu-me quando gritei

Nunca quis fosse eu agressor


Negou-me quando eu pedi

Nunca quis fosse eu mendigo


Ignorou-me quando eu chorei

Nunca quis platéia à minha dor


Mas quando eu me perdi

sem que eu nada dissesse

correu ao meu encontro

e com seu dedo

desenhou um mapa

desde meu coração

ao seu

dizendo-me:

Calma! Vem por aqui!

Sebastião




Quando entramos na mata

perguntou-me

o que era aquilo em meu corpo


acostumado com a dor

nem percebera eu

as flechas encravadas



E então


pediu-me que ouvisse os pássaros

e sem dor

uma a uma

começou a retirá-las

Quinta-feira, Julho 13, 2006

Pomar

A mão da fambroesa

lambuza o pé de maracujá

que pisca pro abacateiro

enroscado na videira


aflora o pessegueiro

espremido na amoreira

que seduz ao moranguinho

à sombra da bergamoteira



descascam-se as laranjas

enfiadas no mamoeiro

de galho dado com a jabuticabeira

inclinada sobre o coqueiro



O butiazeiro afaga a ameixeira

roçando no cajueiro

embaraça as melancias

na raiz da goiabeira



as pitangas enrubescem

descobrindo a tamareira

tocando de leve os tamarindos

entrelaçados com a romãzeira



Acerola e Ananás

se escondem atrás, ali

encobertas pelas bananeiras

emaranham-se no açaí



Kiwi flerta a mangueira

esfregando-se em graviolas

e papaya o meloeiro

acasalado na cerejeira



geléia d'água na boca

brota na tarde a delícia

desta orgia naturalista

escassa e pouca

tão pouca

Bergamotas Paraíso

descascaram-se

expuseram-se gomos

exalaram-se

misturaram-se sementes

lambuzaram-se

espremeram-se sucos

devoraram-se

revelaram-se doces


à sombra da copa que lhes expulsara

Terça-feira, Julho 11, 2006

Dois astros

Vi a lua

cheia

iluminando

meia-noite

a minha noite

inteira



Sol

tu

aberto

meu chacra

do peito

no amplexo

eclipse


24 horas

decorrem

sem ruídos

de gravetos

Ângulos de visão

90 graus


Dois cães andam no mato

um vai à frente

desbravando


dizem-no valente


O outro segue seus passos

e visto assim

parece que o segue

na proteção

do que o mato lhe assusta


270 graus


Dois cães andam no mato

um atrás

segue o primeiro



dizem-no covarde


O outro segue à frente

e visto assim

aquele que o segue

protege o primeiro

do que a descrença lhe assunta


360 graus


na confiança de trás pra frente

ou ao contrário

de tudo que o mato lhes poupa rente

Sobrevivem ambos

Sementeira

Eu sou a paz

que de teu olho

a paz

habita


Estou na paz

que tua mão conduz

à paz

que me trafega

e palpita


Estou em paz

brotando

em flor

no jardim

que te cerca

a cabana

que te fará

paz
Estranho, agora,

que eu já não queira escrever


Estranho, agora,

que eu deseje perceber apenas


Pegar no ar essa asa desmesurada

e transformá-la em ninho


Alguém libertou os pássaros

e me pergunto para aonde voarão

e me pergunto, se o pouso haverá

e me pergunto, ainda,

se haverão de ganhar o espaço

no V da trajetória


Eu não tenho a ti

porque queres o céu

Eu tenho a ti

porque és o céu

Eu tenho o céu

porque é azul

Eu sou azul

porque sou tu

Eu não tenho nada

Estando assim

encravado na tua paisagem

revendo passos, pegadas

reescrevendo palavras e sensações

que se desenham em nuvens


Na gangorra

vamos ao alto

intercaladamente

vemos ao longe

intercaladamente

sorrimos

intercaladamente

voltamos à infância de nossas crianças

entre calados, calados, calados

brincamos

de fazer verdade

o que mentia a máscara diurna

Terça-feira, Julho 04, 2006

feito girassóis

descrevemos a rota do dia

de um lado ao outro

olhando na mesma direção

em par

Domingo, Julho 02, 2006

Sonoras descobertas

Escutei

no silêncio das casas

a insignificância que fui

em teus relógios parados

suspensos num tempo

onde o tempo não havia

Sábado, Julho 01, 2006

Conjecturas

sou essa sombra passageira, você anda comigo e não anda comigo, faz silêncio quando rabisco em meu silêncio algumas cores em pinceladas, em cada tom tu estás, mas não estás, ignoras o meu braço estendido e a mão em gesto solícito, me pede um gesto que não te posso dar e não entendes os gestos que faço, ignoras a minha ausência quando em tua presença eu fujo em nuvens e caleidoscópios por onde vou, não sei aonde andas quando estás e não estás, corro pra tentar te buscar, com um gesto, com uma palavra, um sorriso, mas não voltas, estás tão dentro de ti mesmo que não há espaço pra que eu aí habite, minha casa é a tua casa e não é tua casa, a minha cama te acolhe e não te acolhe, meus pés te aquecem e não te aquecem, minha mão se estende e tenta te alcançar na sala ao lado, mas não te alcança, dizei agora como chegar até aonde meu coração se lança e não alcança...