Fundava-se em fidelidades
dizia-se assim
Mas em uma esquina qualquer
de um dia qualquer
que nunca me foi qualquer
minha mão esfriou
o corpo virou metade
e a outra metade
lançou-se em outras partes
que me quebraram a cabeça
Quinta-feira, Junho 29, 2006
Quarta-feira, Junho 28, 2006
Hibernal
imagem de autoria desconhecidaCansou da mão
parada em outra boca
calando o que desejava ouvir
Cansou
do olho estirado em seu corpo
vasculhando a superfície
Cansou
da brasa noturna
visitando-o sonâmbulo
Cansou
da inatitude na espera
do que sua ansiedade chama
No cansaço
antecipado
chorou a falta
do que se projetava
e busca
e busca
e busca
não está aqui
não está em nenhum lugar
e fenece nas adjacências
do que parece
do que raspa
do que simula
do que rascunha
o seu frio hibernal
em esforço pungente
consome fósforos
devora isqueiros
Segunda-feira, Junho 26, 2006
Quando as coisas se disseram
o encanto se perdeu na fuligem
do querer o que queres e do que quero
Quem de nós aprisionou os pássaros?
o encanto se perdeu na fuligem
do querer o que queres e do que quero
Quem de nós aprisionou os pássaros?
Sei
por quê
estou
escrevendo
tudo
o que
deveria
dizer a ti
Cala fundo
o medo
de não comportar
na palavra
todo
este
acontecendo
por quê
estou
escrevendo
tudo
o que
deveria
dizer a ti
Cala fundo
o medo
de não comportar
na palavra
todo
este
acontecendo
Vírgulas
eu tenho esse velho hábito de ficar pedindo desculpas, você sabe, desculpe, me é inevitável, mas eu preciso fazê-lo agora, porque eu não estou aguentando o jeito que estou me enfiando em sua vida, com essa ansiedade na bagagem e mais um monte de flores que carrego há tempos, aguardando o momento de oferecê-las a alguém, e eu penso, sim de vez em quando, quase o tempo todo, eu tenho pensado que você merece esse monte de rosas apartadas de espinhos que eu trago sempre frescas e úmidas e perfumadas, mas se a minha desculpa é escrever agora o que eu não consigo dizer ao vivo é porque você me trava na porta sempre quando eu limpo os meus pés no capacho e sinto no capacho essa sujeira que me acompanha na sola dos meus sapatos desgastados de tanta estrada eu penso, se é você que me trava na porta ou eu que me seguro para não me jogar no abraço que espero há tempos e que você não pressente, ou pressente e foge, ou pressente e deseja e, desculpe, mas eu preciso de um sinal concreto para que eu avance pela sala, pelo quarto, pela cozinha, pelos cômodos fechados da tua casa, onde eu ainda não entrei e onde tenho curiosidade clara como essa luz que ilumina a estrada que me levou até esse lugar perdido no meio de algum caminho aonde passam carros, e passam gentes, e passam coisas e não fica nada, eu me desculpo e, desculpa-me assim na porta mesmo, mas deixa pelo menos eu espiar pra dentro, prometo não mexer na mobília, percebo pelo seu jeito de ver como me desloco no lado de fora, procurando não demonstrar minha ansiedade, que você teme um pouco essa suposta invasão, mas daqui onde estou sinto cheiro de paredes mofando, de água velha que não escoa mais pelo encanamento, desculpa-me sim, desculpa-me se vou esfregando os sapatos no capacho como se eu já tivesse sido convidado a entrar, mas aqui fora está fazendo frio e eu sei que aí dentro, mesmo que você não perceba, há algum calor escondido e é engraçado, mas eu percebo que estou misturando os tempos dos verbos e, assim, olhando o tempo aqui fora, vejo que algumas nuvens carregadas se aproximam e já não sei se elas vieram por conta prórpia ou se eu as atraí, mas elas sempre andam comigo ou eu vejo nuvens carregadas onde não há, e o tempo e os verbos se vão confundindo em minha cabeça porque você não diz nada, fica apenas me olhando da soleira da porta, como se já soubesse o que eu vim dizer, mas ao mesmo tempo parece não saber, ou não quer saber, ou sabe e quer que eu o diga, porque você já notou que eu ando trancado nesse lado de fora e você quer ajudar a me fazer entrar por que eu queira entrar, que talvez, você não queira me ver fazendo esse esforço pra ser convidado, que a casa já é minha também, que você quer que eu me sinta em casa, na sua casa, como se fosse a minha casa, como se fosse a nossa casa, mas eu reluto e me desculpo, desço os degraus e vou devagar tomando o rumo do portão, pensando em meu pensamento que redemoinha que eu gostaria que você me chamasse, ou que você viesse até mim e me pegasse pelo braço e me conduzisse até o lado de dentro, mas também fico pensando que eu é que devo descobrir como entrar no lado de dentro, que talvez seja isso que você deseje, bem no fundo, e que você quer, e precisa, que eu diga o quê eu quero que você diga, mas nem eu, nem você dizemos e fica tudo tão silencioso e tanto movimento ao redor que não sei, e não sei, e te volto as costas e vou em direção ao portão, esse portão escuro e pesado que eu abri com esforço tamanho como se estivesse arrancando um cadeado de algum baú escondido, e vou em direção a ele, mas eu não penso no portão, eu penso em você parado na soleira da porta, me vendo ir e não se movendo, sem mexer o lábio sequer para dizer que eu não me vá assim, sem pelos me despedir, ou dar um abraço, ou dizer o que vim dizer, ou fazer o que vim fazer, e eu não quero dar o abraço porque eu sei que se eu te tocar, eu desejarei ficar te abraçando e te sentindo, e eu tenho medo que você recuse esse abraço e as palavras que eu ensaiei, como se estivesse assim, dentro da sua casa, mexendo nas gavetas, tirando as sobras, limpando os armários, e no caminho, em direção ao portão pesado e escuro, as rosas vão perdendo o perfume, vão debulhando as pétalas, vão traçando um caminho que eu penso, talvez você siga esse caminho recolhendo as pétalas para me entregar e juntar nas minhas mãos as suas, e me indicar o caminho de volta até à casa, e retirar meus sapatos úmidos e limpar o barro, e jogar as pétalas de rosas dentro da casa para que eu entre e pise sobre elas, sentindo a suavidade que é entrar na sua casa pisando sobre as pétalas dessas flores que carrego há tanto tempo e que não significam nada, nada, a não ser que elas possam servir como tapete para perfumar meus calos e me fazer entrar dentro da tua casa para te dizer que, me desculpe, mas de hoje em diante prometo não mais me desculpar quando te olhar nos olhos e disser com todas as letras que eu corri ao teu encontro no meio da tempestade pra dizer que eu já não sei mais viver sem você, desculpa-me se eu o digo assim, tão rápido, tão veloz, que te possa parecer assustador, mas eu acredito que as coisas não são por acaso e não é nenhum desepero meu que isso tenha ocorrido assim, de uma hora pra outra essa vontade de estar aqui, mas me é inevitável quando lembro que as rosas que mantive vivas até hoje foi você quem me deu...na porta da minha casa, quando não te permiti entrar, onde não te permiti vasculhar, onde não te permiti mexer, onde não te permiti retornar até o dia de hoje quando bato na porta da tua casa pra dizer que sim, eu não posso mais andar sózinho pela estrada, que não posso mais ficar parado em frente à tua porta sem um sinal que me faça entrar e te provocar conforto e paz e luz e um pouco da vida que trago nas mãos que se lançam em direção a ti na intenção precisa de provocar no peito essa vontade, essa necessidade, de calar minha boca na tua boca pra que eu não espere, nunca mais, que tu faças o que eu preciso fazer,
PS: Quando de minha chegada o portão pesado e escuro já se encontrava aberto e havia um tapete de novas pétalas no trajeto até o interior da casa e ponto final
PS: Quando de minha chegada o portão pesado e escuro já se encontrava aberto e havia um tapete de novas pétalas no trajeto até o interior da casa e ponto final
Um
Somos pássaros
na gangorra da paisagem
elevando-nos
aonde a vista alcança
Somos pandorgas
rabiscando o céu do dia
redesenhando trajetórias
nas nuvens
Somos poeira de estrelas
cristalizando juntos
o quê o tempo atroz
nos roubou
pungimos
quando flanamos
entrelaçados
ao sonho
porque então
somos
a Unidade que nos completou
na gangorra da paisagem
elevando-nos
aonde a vista alcança
Somos pandorgas
rabiscando o céu do dia
redesenhando trajetórias
nas nuvens
Somos poeira de estrelas
cristalizando juntos
o quê o tempo atroz
nos roubou
pungimos
quando flanamos
entrelaçados
ao sonho
porque então
somos
a Unidade que nos completou
Sábado, Junho 24, 2006
Govinda hare
foto feita por mimAprendi uma palavra nova
Antes de aprender a dizê-la
Antes de aprender a escrevê-la
Aprendi a senti-la:
Paz
Não foi por acaso
Eu a senti no tom da tua voz
e ela se revelava em mim
No teu jeito de olhar
ela encontrou reflexo
e se expandiu
tomando conta de tudo
aonde transitamos
real e no espiritual
E agora, sózinho,
ela ainda me sobrevive
pelas calçadas
pelas ruas
em outros olhares
em outras vozes
E eu te espero
e vou ao teu encontro
preenchendo outra vez
daquilo que não tem eco
neste concreto
Govinda hare, Gopaala hare
He Prabhu deena dayaala hare
Sexta-feira, Junho 23, 2006
Simples
Já não seguro nada
Não me dá prazer fazê-lo
Desejo apenas
que o convexo das mãos
deixe escorregar
por entre os dedos
a sensação precisa
de algo perfumado
desaprisionado
no quê
supostamente
segura
Não me dá prazer fazê-lo
Desejo apenas
que o convexo das mãos
deixe escorregar
por entre os dedos
a sensação precisa
de algo perfumado
desaprisionado
no quê
supostamente
segura
Terça-feira, Junho 20, 2006
Confessional
Carvão de Gary Braunbeck Confesso
que já não contenho
no corpo
o ato ignorado
quando pões
teu olho miúdo
dentro da noite
de minhas camufladas estrelas
Confesso
que tua mão
incendeia meu gesto
tácito
no copo de vinho
levado à tua boca
no tinto da nossa filosofia
Ah! Queria rasgar as velas nessa deriva em que naufrago
e me entregar às tempestades de areia que me cegam
seguir em frente sobre meus cadáveres
do que se anunciaria provável encontro
Ah! Estou imóvel na estática das horas
olhando-te como quem admira um monumento
ensaiando tocar o que fica mais dentro
fazendo anotações num papel amassado
O que me falta
Dizes
O que me falta
para chegar a ti
terno e doce
como quem aconchega
O que me falta
Dizes
O que me falta
para chegar a ti
sem arames farpados
como quem suaviza
O que me falta
dizes
Grites comigo
mas dizes
porque já não tenho voz
para romper
a quietude das horas
confessando
que és o que sempre quero
Sem título...pois duvido
Sou esse poço
de contradições
e me divirto tanto!
Mas
de uma coisa tenho certeza:
viver na dúvida
não me encerra
ao quadrado
de contradições
e me divirto tanto!
Mas
de uma coisa tenho certeza:
viver na dúvida
não me encerra
ao quadrado
Molas obsoletas
I
Saudade
é um pedaço do outro
tatuado em nós
ou
vice-e-versa
II
Saudade
de segurar o gesto
quando se acenou
para mim
e eu recusei
tocá-lo
Saudade
é um pedaço do outro
tatuado em nós
ou
vice-e-versa
II
Saudade
de segurar o gesto
quando se acenou
para mim
e eu recusei
tocá-lo
Segunda-feira, Junho 19, 2006
Tardes do Sul
Tua voz ao telefone
é bergamota
devorada
ao sol
Corro ao mercado
ainda há tempo
Compro dúzias delas
e cá me sento
Gomos sobre gomos
lambuzam
a tarde
da minha imaginação
e me farto
de lábios
sabor e som
cítrico
no tom
da voz que me é canção
é bergamota
devorada
ao sol
Corro ao mercado
ainda há tempo
Compro dúzias delas
e cá me sento
Gomos sobre gomos
lambuzam
a tarde
da minha imaginação
e me farto
de lábios
sabor e som
cítrico
no tom
da voz que me é canção
Sexta-feira, Junho 16, 2006
Metralhadora
Quando na esquina
um outro olhar
atravessa nosso colete
à prova de balas
Sangra-me
no silêncio
teu sorriso
cordato
Meus dedos
ao peito
cavam arrancar
na procura
do projétil
que se alojou
a cicatriz aberta
No congestionamento
do teu quase
meus pés
se vão
contrários
de um em outro
à calçada
à rua
E morro
no tráfego
dos alvos móveis
onde suturas
teu olhar
que mira
onde não estou
um outro olhar
atravessa nosso colete
à prova de balas
Sangra-me
no silêncio
teu sorriso
cordato
Meus dedos
ao peito
cavam arrancar
na procura
do projétil
que se alojou
a cicatriz aberta
No congestionamento
do teu quase
meus pés
se vão
contrários
de um em outro
à calçada
à rua
E morro
no tráfego
dos alvos móveis
onde suturas
teu olhar
que mira
onde não estou
Quarta-feira, Junho 14, 2006
Destino
Do verbo que consome o que provoca fome
fotografia sem crédito, sorryTinha um olhar dentro
Tinha voz macia
Tinha mãos precisas
Tinha pensamento longe
Tive de olhar fundo
Tive de acalmar a voz
Tive de precisar o gesto
Tive de fluir espontâneo
Tivemos desvelados os segredos
Tivemos gemidos escafandros
Tivemos roçadas nossas texturas
Tivemos esvaziada a razão
E
Teve nuvem
Teve música
Teve toque
Teve vácuo
Isso não teria
se tivéssemos
Olhado como sempre
Ouvido como convém
Oscultado a superfície
Ordenado a garantia
Entretemo-nos
tendo um
ao outro
por segundos
E
fomos felizes
sem termos pretendido
sê-lo
no que prescrito
seria preciso
tê-lo
Sábado, Junho 10, 2006
Teardrop - Cocteau Twins e Massive Attack
Antes
era o desejo
do que me surpeenderia
lá fora
algo
que não sei
e ainda não sei
e não encontro
respostas
que o feto
de minha pergunta
cala
Obs: tatuado ao ver o vídeo acima
BAR
A carne
nova
exposta
aos olhos
do consumidor
consome dores
de desamor
Nessa sangria
desesperada
viro vegetariano
nova
exposta
aos olhos
do consumidor
consome dores
de desamor
Nessa sangria
desesperada
viro vegetariano
Tricot
Perdi
o fio
Já não sei mais
onde cruzam
minhas agulhas
Enredo-me
no novelo passado
e o ponto futuro
Jã não teço o presente
E me visto
do que no inverno
não mais aquece
Será preciso
desfazer
a trama
na qual me ato
a dar-me
em nós
o fio
Já não sei mais
onde cruzam
minhas agulhas
Enredo-me
no novelo passado
e o ponto futuro
Jã não teço o presente
E me visto
do que no inverno
não mais aquece
Será preciso
desfazer
a trama
na qual me ato
a dar-me
em nós
Quinta-feira, Junho 08, 2006
Love's Easy Tears - Cocteau Twins
Procedimento:
Clique sobre a tarja "Click here to play". Em seguida clique sobre o pause (abaixo, no canto esquerdo do vídeo) e aguarde o arquivo completar o download (é rápido). Em seguida libere o pause e assista o vídeo na íntegra e desfrute da canção.
Quarta-feira, Junho 07, 2006
Tudo e Nada
Aquilo
de tudo
e todos
não pertence
a nada
e nada permanece
em tudo
que diz
e não é
porque não fica
se esvai
no segundo
em que nunca esteve
e nunca
voltará
de tudo
e todos
não pertence
a nada
e nada permanece
em tudo
que diz
e não é
porque não fica
se esvai
no segundo
em que nunca esteve
e nunca
voltará
Domingo, Junho 04, 2006
S.O.R.T.E
Para Heloísa Bacichette, ao som da Valsa No. 6 de Schubert, do CD Clássicos para crianças, ao piano Fernando Tomitura e Almilcar Zani .
Quando me deste
o trevo
de quatro folhas
guardei-o
delicadamente
entre páginas
de um livro
para que as folhas
não quebrassem
Assim,
a sorte
de haver te conhecido
me sorrirá inteira
em meio às palavras
sempre
Quando me deste
o trevo
de quatro folhas
guardei-o
delicadamente
entre páginas
de um livro
para que as folhas
não quebrassem
Assim,
a sorte
de haver te conhecido
me sorrirá inteira
em meio às palavras
sempre
Do que há no instante
Gente
às vezes
é breve
passa
breve
mexe na lama
da alma
no breve
que abrevia a dor
e o breve de gente
fica
infinitamente
tatuado
na pele
que nunca breve
se esquecerá
às vezes
é breve
passa
breve
mexe na lama
da alma
no breve
que abrevia a dor
e o breve de gente
fica
infinitamente
tatuado
na pele
que nunca breve
se esquecerá
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