Domingo, Abril 30, 2006

Acrílico sobre tela by me


Ontem

a engrenagem de meu relógio

enferrujada de horas atrás

deu um estalo

porque em meio

a fumaça do bar

você acertou

os meus ponteiros

Sábado, Abril 29, 2006

Recado

Para aqueles que cá estão pela primeira vez recomendo a leitura a partir do arquivo do mês de fevereiro.

Creio que, desta forma, será possível desvendar a narrativa que aqui tatuo.

Anunciação

Acrilic on canvas de Georg Baselitz


Ando me desatando

dos nós que fizeste


Ando apagando

as marcas que deixaste


Ando vivendo

do que está por vir

me anunciando em cores

empinando pipas

por aí

ao avesso

do que supõe tu, tristeza

Sexta-feira, Abril 28, 2006

Cacos

Enquanto abria a porta da minha casa para que você entrasse percebi, na hora, que você não ficaria. Percebi no seu jeito manso de não fazer nada que aquele reino, encantado ou não, não lhe serviria. Você usava coroas demais e pretendia súditos em vez de um amor tranquilo e algum desafio na vida.

Enquanto abria a porta de minha casa percebi que o reino era pequeno para tanta soberba, que o armário era pequeno para tantos trajes, que a circulação era estreita para tantos gestos, que a refeição era pouca para tanta fome e que a carruagem era simples para tanto veludo.

Enquanto abria a porta da minha casa para que você entrasse, não só na casa, mas em minha vida inteira, percebi que a você não bastaria o leito onde repousaríamos nossa esperança de um outro céu, azul em alguns dias, cinza em outros. Você usava cremes demais para esconder a verdadeira cor de sua tez, que transparecia o mais belo de você.

Enquanto abria a porta da minha vida para que você entrasse e escolhesse o lugar mais confortável, não entre meus brinquedos, mas em meio às coisas mais significativas de tudo que já somei, percebi na hora que não era, pois, o lugar adequado para alimentares teus estímulos. Em minha casa não havia espectadores e nem passarela por onde você pudesse desfilar sua beleza externa, que a mim não diz.

Enquanto eu abria a porta da minha casa para que você entrasse desejei que minha casa passasse a ser a sua. Desejei que nela você repousasse seu cansaço e realimentasse as esperanças. Desejei que, pisando em meu recanto particular, misto de paraíso e cidadela na colina, você passasse a olhar o mundo com o recheio da poesia que havia em ti e em mim na hora derradeira em que nos olhamos pela primeira vez.

Desejei, enquanto abria a porta da minha casa, que você olhasse para tudo com o mesmo olhar que pousou sobre meus olhos no meio da praça, ante tantos olhares escorregadios e perdidos. Nossos olhares conheciam a direção do alvo, mas fora um olhar breve, de passagem, como se eu fosse para você apenas uma porta de saída, enquanto eu abria a porta da minha casa.

Enquanto abria a porta da minha casa percebi que por ela, em breve, você sairia, pois não lhe foi dado o desejo de compartilhar, lhe foi sim, ensinado o verbo dividir e vingar, palavras que não fazem parte de meu vocabulário.

Enquanto fechava eu, a porta, olhando a desordem que você deixou, planejo retomar a lida diária. Ajeito os galhos, desejando que não faças em outras casas uma desarrumação tão perfeita a ponto de impedir que outros pássaros desejem ali se aninhar.

Enquanto fechava a porta da minha casa, após sua saída, percebi que ainda tenho esse jeito doce de desejar que por ela, em breve, entre quem realmente mereça conviver com as coisas mais belas que reuni ao longo dos anos, quem não pretenda sentar-se em trono feito de vento, a requerer idolatrias.

Enquanto fechava eu, a porta, percebi que sim, o erro não foi abrir a porta, mas foi permitir que por ela você entrasse, pois a porta se manterá aberta, não para você, que não soube colocar um pé depois do outro, mas para quem queira pisar leve sobre todos os sonhos que guardo em cambraias macias e perfumadas.

Enquanto fechava a porta pensei que não, não deveria mais usar tantos cadeados, eu me perderia em tantas chaves. Vou mantê-la encostada e sei que, em um dia de sol muito forte, algum raio luminoso e quente irá sorrateiramente se esgueirar pelo chão, desejando se espalhar por todos os cômodos e me tornar pleno ao reunir sua luz à minha.

Enquanto encostava a porta abri um sorriso e agradeci, estava de novo inteiro onde você pretendia eu aos pedaços. Agradeci, pois me fora extirpado algum mal profetizado enquanto abria eu a porta para que você entrasse em minha casa. Agradeci por não ficares, muito em breve o pó se acumularia pelos cantos.

E você nunca terá idéia de quão grande o esforço que fiz para abrir a porta para que você entrasse. Nunca terá idéia de quão pesada fora a porta, por tanto tempo. Você nunca saberá o quão leve ela tornou-se agora, quando fica assim, encostada, à espera de que algo bom adentre a paz que conservo em minha casa e que bem poderia também ser a sua, se você de fato soubesse o que significa entrar em minha casa.

Quarta-feira, Abril 26, 2006

Feto feito de afeto

Zeli, minha mãe.


Amo minha mãe.

Sim. Amo. Amo o jeito como, naquilo que por muito tempo julguei ser desamor, ela me amava, em silêncio.

Amo minha mãe porque não me aprisionou em seu casulo, nem teceu teias com o fim de me proteger do mundo.

Amo minha mãe porque me entregou chaves e permitiu procurar as portas, sabendo que algumas eu abriria, outras não, pois não me seriam necessárias.

Amo minha mãe porque não me sufocou naquilo que o egoísmo decidiu chamar de amor, ao contrário, em muitas ausências suas, deixou-me livre para escolher e construir minha personalidade, minha solidez, meu eu, sem interferências do que pensava ela ser a vida que só a ela seria a adequada.

Amo minha mãe porque sempre soube que ser mãe não significaria, nunca, segurar minha mão em todos os momentos, ao contrário, permitiu-me dar os passos, mesmo que de vez em quando eu caísse diante o seu olhar.

Amo minha mãe porque deixou que eu mesmo descobrisse o jeito de limpar as feridas até cicatrizarem, mesmo que demorasse para que isso ocorresse.

Amo minha mãe porque muitas vezes chorou em silêncio quando me sorria sua infinita bondade de compartilhar minhas inexpressivas tentativas.

Amo minha mãe porque, quando eu distante, deixou sua dor calar para não interromper minha inserção no mundo dos Homens.

Amo minha mãe porque não acendeu a luz quando escurecia e nem afastou os fantasmas, para que eu aprendesse que o mundo é feito de luz e sombras.

Amo minha mãe porque quando eu lhe disse que sonhava, deu-me um travesseiro de penas, mas também me disse que o sonho finda antes que se anuncie seu fim e o travesseiro pesa sob o descanso.

Amo minha mãe porque muitas vezes me deixou ao relento, destapando de minha alma o calor que dela deveria vir, para que eu soubesse que quanto mais frio por fora, mais quente ficaria o dentro, com o tempo.

Amo minha mãe porque foi, e é, a melhor mãe que eu poderia ter, pois arrebentou os grilhões que me aprisionavam a ela em um ritual delicado e verdadeiro, porque honesta, minha mãe nunca desejou ser algoz de coisa alguma, muito menos do filho que desejava descobrir o mundo, ciente de que este poderia ser um lugar hostil.

Amo minha mãe de inteiro o que ela nunca quis em mim metades.

Amo minha mãe porque ainda sabe que em meu jardim nascem ervas daninhas, mas jamais virá retirá-las, pois em sua sabedoria minha mãe deixa que eu selecione com quais plantas queira nascer, brotar, ou definhar.

Amo minha mãe porque ela não me escondeu do mundo, deu-me a primeira pena branca, abriu a janela e me disse: Voa!

Outras penas fui recolhendo no caminho e com elas montei as asas que uso, para dizer a ti mãe, que tenho voado, pousado, machucando as penas que nem tão brancas quanto outrora, mas que em seus ruflares sopram palavras com as quais me ensinaste a dizer o que te digo agora.

Haveria sido se soubesses o quanto

foto by me num fim de tarde, no começo do que não foi


À margem

do lado de cá

olho, do rio

a margem


Construo pontes

E a cada pilastra erguida

mais se afastam

teus lados

que margeiam

o que não constrói


E sigo

de cá

sacos de cimento

areia

na tarde

de concreto

Domingo, Abril 16, 2006

Conjunção

Toda vez

que esse todo

me arrisca

em alguma direção

o outro lado

porém

então...

foto que fiz durante ensaio do espetáculo A Tempestade


Nunca

será

o que

precisa

ser

Agora

e não é

Sábado, Abril 15, 2006

O fato

Da ausência

do amor

encho essa página

dele

Única escritura

Não sei escrever

compliKado


O que sinto

é simples

Sexta-feira, Abril 14, 2006

Anatomia

Teu corpo:

volumes

e reêntrancias

por onde me escondo

me achando

Sol

Não há nada

mais bonito

do que o sorriso

que me dás

por qualquer motivo

Quinta-feira, Abril 13, 2006

Sumo

Havia esse gosto

ao fim de tarde

Teus braços

já não se estendiam

em favor dos meus


Sem açúcar

anoiteci limão

espremendo silhuetas

da escuridão

Domingo, Abril 09, 2006

Casa

Consertei a torneira

Aspirei o pó

Escovei os azulejos

Limpei os vidros


Lavei roupas
Sequei roupas
Passei roupas
Dobrei roupas

Aguei as plantas
(as que ainda sobreviviam)

Papéis inúteis
no lixo

O lixo
no lixo

Lavei a alma
Perfumei o corpo
vice-versando os verbos

Ouvi música durante

Estou vivo
outra vez

Sexta-feira, Abril 07, 2006

Primeira vez

Ao som de Everythig Depends on You, de e com Chet Baker


Sonho à tua espera

e esperando que sonhes

que o seja real

revirgino-me

sem dar-me aos outros

como só a ti eu o faria

Quinta-feira, Abril 06, 2006

Você

me dá

as letras

mas

não

escreve

palavras

e, por isso

morre

o que já poderia

ter nascido

Pescaria

No inesperado das horas

te encontrei

eram tantos os risos

mas no fundo

minha âncora queria

o que não me dás de isca

Terça-feira, Abril 04, 2006

Quiromancia

Hands that have drawn hands, Zen #27, 2005, colored pencils and conte on paper by Valerie Richards



As linhas da tua mão

rascunham sobre meu destino

tessituras do imprevisível


no corpo teu

minhas digitais

tatuam-se

eternas

Moradas

Chegaste em silêncio

a porta fechada

se abriu

e uma nesga de luz

inundou

a sala


Desde este dia

a casa

canta

toda

Ar II - com verso final escrito pela Sayô

Reproduzo aqui o poema anterior cm a inclusão do verso final escrito pela Sayô, do blog Artes e (com)trastes. amiga de escrita on-line que deu vazão à construção coletiva. Conexões!


Da respiração

nada sei

mas quando me tocas

ela falta

e fica ofegante

quando me deixas

Ar

Da respiração

nada sei

mas quando me tocas

ela falta

Segunda-feira, Abril 03, 2006

Cítrico e amadeirado

Dilata-se a narina

quando passas


Anseia

nos odores

algum jeito

de te guardar

Alma ama

Senta

tua dor no peito

sobre meu leito rio

de pernas e braços

E escorre

neste regaço

o que teu prazer

acumula

Moldura

Casa branca

no alto da montanha

olha a cidade

e sonha

nunca mais ser paisagem

de quem de lá

a espia
E fez-se sol

na estrada

quando tua mão

madrugava

sobre a minha

tocando

onde supunha eu

haver mais nada