Enquanto abria a porta da minha casa para que você entrasse percebi, na hora, que você não ficaria. Percebi no seu jeito manso de não fazer nada que aquele reino, encantado ou não, não lhe serviria. Você usava coroas demais e pretendia súditos em vez de um amor tranquilo e algum desafio na vida.
Enquanto abria a porta de minha casa percebi que o reino era pequeno para tanta soberba, que o armário era pequeno para tantos trajes, que a circulação era estreita para tantos gestos, que a refeição era pouca para tanta fome e que a carruagem era simples para tanto veludo.
Enquanto abria a porta da minha casa para que você entrasse, não só na casa, mas em minha vida inteira, percebi que a você não bastaria o leito onde repousaríamos nossa esperança de um outro céu, azul em alguns dias, cinza em outros. Você usava cremes demais para esconder a verdadeira cor de sua tez, que transparecia o mais belo de você.
Enquanto abria a porta da minha vida para que você entrasse e escolhesse o lugar mais confortável, não entre meus brinquedos, mas em meio às coisas mais significativas de tudo que já somei, percebi na hora que não era, pois, o lugar adequado para alimentares teus estímulos. Em minha casa não havia espectadores e nem passarela por onde você pudesse desfilar sua beleza externa, que a mim não diz.
Enquanto eu abria a porta da minha casa para que você entrasse desejei que minha casa passasse a ser a sua. Desejei que nela você repousasse seu cansaço e realimentasse as esperanças. Desejei que, pisando em meu recanto particular, misto de paraíso e cidadela na colina, você passasse a olhar o mundo com o recheio da poesia que havia em ti e em mim na hora derradeira em que nos olhamos pela primeira vez.
Desejei, enquanto abria a porta da minha casa, que você olhasse para tudo com o mesmo olhar que pousou sobre meus olhos no meio da praça, ante tantos olhares escorregadios e perdidos. Nossos olhares conheciam a direção do alvo, mas fora um olhar breve, de passagem, como se eu fosse para você apenas uma porta de saída, enquanto eu abria a porta da minha casa.
Enquanto abria a porta da minha casa percebi que por ela, em breve, você sairia, pois não lhe foi dado o desejo de compartilhar, lhe foi sim, ensinado o verbo dividir e vingar, palavras que não fazem parte de meu vocabulário.
Enquanto fechava eu, a porta, olhando a desordem que você deixou, planejo retomar a lida diária. Ajeito os galhos, desejando que não faças em outras casas uma desarrumação tão perfeita a ponto de impedir que outros pássaros desejem ali se aninhar.
Enquanto fechava a porta da minha casa, após sua saída, percebi que ainda tenho esse jeito doce de desejar que por ela, em breve, entre quem realmente mereça conviver com as coisas mais belas que reuni ao longo dos anos, quem não pretenda sentar-se em trono feito de vento, a requerer idolatrias.
Enquanto fechava eu, a porta, percebi que sim, o erro não foi abrir a porta, mas foi permitir que por ela você entrasse, pois a porta se manterá aberta, não para você, que não soube colocar um pé depois do outro, mas para quem queira pisar leve sobre todos os sonhos que guardo em cambraias macias e perfumadas.
Enquanto fechava a porta pensei que não, não deveria mais usar tantos cadeados, eu me perderia em tantas chaves. Vou mantê-la encostada e sei que, em um dia de sol muito forte, algum raio luminoso e quente irá sorrateiramente se esgueirar pelo chão, desejando se espalhar por todos os cômodos e me tornar pleno ao reunir sua luz à minha.
Enquanto encostava a porta abri um sorriso e agradeci, estava de novo inteiro onde você pretendia eu aos pedaços. Agradeci, pois me fora extirpado algum mal profetizado enquanto abria eu a porta para que você entrasse em minha casa. Agradeci por não ficares, muito em breve o pó se acumularia pelos cantos.
E você nunca terá idéia de quão grande o esforço que fiz para abrir a porta para que você entrasse. Nunca terá idéia de quão pesada fora a porta, por tanto tempo. Você nunca saberá o quão leve ela tornou-se agora, quando fica assim, encostada, à espera de que algo bom adentre a paz que conservo em minha casa e que bem poderia também ser a sua, se você de fato soubesse o que significa entrar em minha casa.