Sexta-feira, Março 31, 2006

Direct Scan Eye by Fernando Ribeiro



Medo

quando me vasculhas

em segredo

Avesso

foto by Fernando Ribeiro


A vidraça

quebrada

na tarde fosca

me permitiu

ver além

do que eu

me recusava

porque tosco

esse meu jeito

de olhar

sempre

para dentro



Fernando Ribeiro
Born in Rio de Janeiro, Brazil, in 1962.
University degrees:
Geography, 1987.
Graphic Design, 1997.
Master in Arts and Image Technology, 2001.
University teacher - photography, multimedia, computer graphics, 2002/5.
Living and working in Brasilia (Brazil's capital).
www.fernandor.com/innerworld.htm

Quarta-feira, Março 29, 2006

Um dar-se conta no meio da tarde, enfim.





Dei-me conta, só hoje, que o amor não se faz de ilusão.

Dei-me conta hoje, de que não resulta amor, quando à procura.

Dei-me conta, ainda hoje, que ele, o amor, não brota de alguma carência.Porque carência é terreno árido para que nele brote algo bom, com raízes como requer o amor.

Dei-me conta, também, que o amor, chega na hora precisa em que dele não mais se precisa. Porque o amor quer ser, não quer preencher lacunas.

Dei-me conta, de que não se faz necessário contar os dias, para que ele, o amor, chegue. Porque ele, o amor, desconhece a invenção do calendário.

Dei-me conta de que o amor, hoje, não resulta daquilo que se subtrai, nem do que soma. Porque não se trata, o amor, de fórmula matemática.

Dei-me, hoje, conta de que não busco mais no arrebatamento das horas que o amor se cumpra, pois poderia afugentá-lo de minhas entranhas antes que ele, o amor, se fizesse prazer a cada segundo na consistência do que já existe dele em mim.

Dei-me conta de que hoje não me basta o amor se ensaiar em olhares, pois precisa ele, o amor, subir ao palco e se realizar enquanto espetáculo iluminando a vida de eu platéia recusando-se à sinopses.

Dei-me conta hoje, de que o amor, não é um estado momentâneo em que dois corpos comungam do prazer físico. Porque a cada gozo desperdiçado em nome dele, o amor se consome na ausência das horas seguintes e morre, aos poucos.

Dei-me conta de que ele, o amor, não se deixa enganar nas belezas padrões que estão à solta. Porque em toda sua esperteza, enquanto amor, ele não olha o que vê, mas fixa seu olhar além dos hemisférios do que fica na paisagem.

Dei-me conta de que o amor, hoje, não é um link que possa eu acessar quando me convier, quando a asa solidão ameaçar fechar-se sobre o melhor que há em mim. Porque ele, o amor, não floresce em megabytes virtuais onde não se respira dele, amor.

Dei-me conta de que assim, eu e o amor, estamos mergulhados um em outro e esperaremos a hora exata de emergir ou submergir, buscando ora a superfície, ora as profundezas de tudo que também é amor e que por nós...passa. Porque amor é humano e se assim não fosse, esse mar de olhares, abraços, negações e aceites, sons, cheiros e suores não haveriam de ser, o que se pretende que seja amor.

Por fim, hoje, no meio da tarde, me dei conta de que a pieguice que ora denominam o falar sobre amor, me acometeu. E por ele, o amor, tatuo aqui minha escrita permitindo que me sorva, absorva minha pele devagarinho, na forma de Amor, enfim.

Música

A viola

na corda

que cantava

teu nome

rebentou

em flor

Interiores


Fora

não é o dentro

do que aflora

no olho

que olha

Reticentes

Cala

minha alma

quando

dentro

tua retina

fala

de asas

Terça-feira, Março 28, 2006

Piso em ovos

Sigo

te gostando

devagarinho

para que

se acontecer

um dia

não quebre

ante qualquer

estalo

do mundo ao redor

Cortina e névoa

Foto by Sérgio Guida


Vaza

na trama

luz


Infla

o sonho

de voar


Na calmaria

do beijo

que te venta

e do abraço

que te sopro

Sábado, Março 25, 2006

Outono

Eu

Você

dois bobalhões

aos borbotões

abrindo-se

em florada

na estação

em que caem

e caem...as folhas

Não verbal

Perco o rumo

quando passas por mim

e deslizas tua mão

sobre a mesa

no que a minha mão

não alcança

e que me escorrega

de ti

Band-aid

Ao som de Alone Together, de e com Chet Baker


Abria

a embalagem


A tesoura

escapou-me

furei o dedo

sangrou

passo cotonete

sobre o teclado

pra ver se cura

a escrita do que me dói

o corte

Diluído

a vida some

do alcance da vista

quando

nas barcas

me atravesso

em tua direção

e me remas

pra lugar nenhum

Poema a 4 mãos on-line - By Me e Sérgio Guida

Chove

um rio

vazio, vazio

e esse rio desce

as profundas trilhas

da alma peregrina

buscando na ausência de ti

o que não há em ti

miragem

em mar aberto

chora o sal

do que rio

doce

aberto pela ânsia

do querer mais

do que possível

Guilherme Tell

foto by Fernando Ribeiro



Ao som de Tenderly, de e com Chet Baker ao trompete e nos vocais


E cada

olhar

é um alvo

sem direção

Minha seta

lâmina

no aço

da tua maçã

improvável

Quadro-negro

A som de These Foolish Things de Chet Baker


Hoje

apaguei-me

da sua vida


Desejava

não borrar

a minha

Ensaio

Ao som de Música, de Liminha e Vanessa da Mata, na voz de Vanessa


Nós dois

você aí

nessa mesa

eu nesta

nem sei quem é você
nem sabes quem sou

baixas os olhos

assim

enquanto te lambuzas

de desejo

impossível

por que não te permites

devorar a fruta

que te apetece

e eu limpo a boca

do que não provei

Sexta-feira, Março 24, 2006

Roda

foto by Rui Takeguma



As meninas cantavam:

"se roubei, se roubei teu coração..."

E ninguém ouvia

Oníricas

foto by me



É engraçado

que à noite

dormindo

tua mão me busca

e meu corpo

te procura


sonho

presente

em que dorme

meu desejo

Lúdico

Brincavas

pela manhã

após amor feito

a arma

de plástico

em tuas mãos

disparaste

contra meu peito

teu gesto

sangrou

a ciranda do dia

Quarta-feira, Março 22, 2006

Ao som de Beatriz, de Chico Buarque na voz de Zizi Possi


Quem foi afinal

que deu o primeiro sinal

Para que o show encerrasse

no inverso do que seria

antes de

começar?

Terça-feira, Março 21, 2006

Bruma

Ao som de qualquer canção lenta e calcinante


Minha dor

é poesia

desamor do qual não vivo


sobrevivo

à distância

amando-te

nas falácias

nas falésias

em falência

broto


No pergaminho te escrevo...sonho

Três repuxos

afundou o que era amar

I
nas tramas redes

Te enredaste

consumindo-te à boca

nas brincadeiras

de anzóis

entre menino e homem


II
O cortejo segue

a enterrar-se a si mesmo

do mesmo que és

na multidão


III
Jogo terra

planto flores

à partida

do quê não parido

O resto é silêncio

Escorregavas

em funeral

das mentiras

depositadas flores

a decorar a morte

amor natimorto

e julgavas não saber eu

que lustrastes os sapatos

todos os dias

planejando

nosso aborto em alto mar

Segunda-feira, Março 20, 2006

Digitais

Ao som de Dinner at home, de Michael Danna, Eve Egoyan ao piano e Mark Fewer no violino - Trilha sonora do filme The Adjuster


Quando

palavra

escrevo-me

vôo

no que a palavra

revela-me

de quando

em quando

tua pele memoriza

Dedilhado a você

Ao som de Nocturne, Op. 27, No. 2, de Chopin, Peter Serkin ao piano


Deixo as imagens

momentaneamente

de lado

Tento

desenhar

com palavras

o que me sugere a música

e vice-e-versando-me a Vida

Andante ma non troppo

Ao som de Notturno D.897, de Franz Schubert, na interpretação de Trio Fontenay


Varava

nesga de luz

cobrindo-te

os vãos



tateiam

minhas mãos

chaves

Madrugada em quadrado

Ao som de Amado Mio, na voz de Pink Martini


A visão

emoldura

no corpo

da mão

teu corpo


eterna rua

de andar na contramão

sinal fechado

viras pro lado


tento dormir

Desaristotélica

Ao som de Llorando na voz de Rebeca Del Rio, composição de Angelo Balamenti, da trilha sonora de Mulholland Drive de david Linch



Acontece

assim

fim

a porta fechando

de início

no meio

do que não

desejado

sim

Domingo, Março 19, 2006

Para cavaquinho, pandeiro e surdo

Os cinco primeiros versos postei aqui há alguns dias. Era-me um poema. Hoje reli e pensei em sons dos instrumentos que emprestam sonoridade ao título. Em ritmo de samba-canção escrevi e brinquei com os versos que seguem à primeira estrofe...penso em canção. Gravei em meu PC pra não esquecer a melodia...não sei escrever partituras, mas, enfim...não quis perder o compasso e a harmonia.


Teima

sobre meu sangue

que, de ti

amar me

queima



Queima

que de ti

sobre meu sangue

amar me

teima


Esparramou sobre meu sangue a teima chama que queima de amar me de ti

só de amar me de ti

só de amar me de ti

só de amar sobre meu sangue

Teima

de ti só de amar

sobre meu corpo queima

sangue de amar-te

chama me queima

chama me queima

chama me queima

chama-me

Sexta-feira, Março 17, 2006

Ao som da música “Calling You”, composta por Bob Telson, do filme Bagdá Café e na voz de Jevetta Steele, que na época era backing vocal da banda 10.000 Maniacs (adoro).


Esta lâmpada apagada

vai dar em luz

ou

vai dar em nada

Quinta-feira, Março 16, 2006

Sem tradução

Para ler ao som de Because de Lennon e Mccartney na voz de Ná Ozzetti e piano de André Mehmari



Saudades de quem fui

e do riso frouxo que me brotava à beira

de tudo


Saudades de quando me dizias

o quê tua língua

tocava

em quem fui

e agora

sem paradeiro

Murchas

Trouxeste flores

joguei-as ao chão, pisei

bateste a porta

recolhi cada pétala amassada

e recompus o odor

de tuas mãos

narina adentro

mas tardava o gesto

Fundo

desconheço ba ra rá ba ra rá...


Há dias

em que o mar tá pra peixe

outros não

mas não deixo de lançar minha rede


um dia

te pesco


Acarinho tuas escamas

sopro em tuas guelras

ar

quando eu te roubar

do azul

em que à procura

Furniture





Cansa-me

a poesia do amor


Quero desarrumar a casa

te entranhar

nos cômodos

encaixar as peças

sobre a mobília

Cansar a mim

Cansar a ti

de amar corpóreo

sem me importar

se rima

Amanhã pensarei sobre o ontem, depois...naftalina

Psiu!



Fodam-se

os que não gemem

e calam

sentir a dor

do prazer

que temem

Sobre asas

desconheço a autoria da imagem


Flanam?

Jogam-se assim

ao vento

e de contentamento

pousam hoje

aonde amanhã já nem sei

Terça-feira, Março 14, 2006

Tinha ela um jeito delicado de lamber as próprias patas. Depois, resignada, lambia minhas mãos. Eu corria ao banheiro lavar, lavar, lavar. Não suportava vê-la se devotando a mim feito uma cadela.
A percepção

do que feres

ao teu silêncio

é proporcional

ao que destróis

e não percebes

em comunicação

muda

Sem título

Corrosivo

esse teu jeito de se jogar

nos braços palavras

de quem te acena

possibilidade outra

enquanto

nas entrelinhas

Eu Você

juntos

Segunda-feira, Março 13, 2006

Cômoda de mim

conforme minha amiga Ju a tela acima é de autoria de Salvador Dalí. Obrigado Ju.


No fundo da gaveta

havia

uma rua estreita

e no caminho

uma placa:

Ou vais até o fim

Ou fazes a curva

e acabas

fechado.

Domingo, Março 12, 2006

Original de cópias

desconheço a autoria (sorry)


Virava-se ao avesso

E, por dentro,

ensaiava-se

de coisa muito

Se desdobrando no fora

em qual nunca

rascunho

Terça-feira, Março 07, 2006

Figuras da nossa linguagem

desconheço a autoria da foto


Era possível dançar

se assim

desejassem meus pés

Era possível dançar

Se desejasse

assim

o meu corpo


Faltava-me apenas

Faltava-me apenas

Faltava-me

no paralelismo ritmado

tu

impossibilidade

anáfora sobre a qual

ensaio

e repito passos

Segunda-feira, Março 06, 2006

Verdade

Art by Steve Danzig


E a tua mentira é

desde já

a verdade que me assombra

E sendo

tua mentira a tua verdade

a minha verdade

não se alinha

porque não mente

Domingo, Março 05, 2006

Cs

Ou cambio a cara da coisa

Ou calo na coisa oca

Post Scriptum

Olha eu quero te dizer...bem o que eu quero dizer é que as flores do vaso já murcharam e eu cansei de trocar a água, queria dizer que, quando vc disser de fato o que eu preciso ouvir e quando eu deixar de querer ouvir o que você ainda não sente nececessidade de dizer, e quando você parar de me pedir que eu te diga aquelas palavras tão importantes que todo mundo deseja ouvir, mas que pra mim não faz a menor diferença ouvi-las, por que o que importa é que você esteja por perto, mesmo em silêncio, por que eu não sou o tipo de pessoa que usa essas palavras que todo mundo usa e necessitam ouvir, fico só pensando que você podia sim, de vez em quando trocar a água do vaso, as flores iam gostar e iam durar um pouco mais porque elas, assim, quero dizer, elas quando são cortadas, arrancadas de seus canteiros, elas precisam de um certo cuidado para que vivam um pouco mais, e não pode ser só um a cuidar porque, porque a gente nunca tem tempo e eu fico pensando que já não quero mais flores, nem cortadas nem vivas, dessas em vasos, com terra e tudo, por que se elas morrerem eu terei de lidar com esta coisa morta dentro de casa e não sei muito lidar com essas coisas, sabe, acho que vc sabe melhor do que eu porque foi assim com o cão que você trouxe pra dentro de casa, aquele lembra, que foi atropelado aqui em frente, o corpo dilacerado ao meio, lembro-me bem, você cuidou, você cuidou e era lindo ver que você ainda tinha muita disposição pra cuidar de alguma coisa que tinha uma chance, uma chance apenas de sobreviver, mesmo que essa coisa estivesse morrendo, mesmo que essa coisa estivesse morrendo em suas mãos, mas você chorava pelos cantos, eu lembro, e toda vez que eu lembro eu choro por que eu nunca quis ver você chorando, eu achava que você tinha de ser sempre forte, como aquele cãozinho que você trouxe dilacerado e me entregou nos braços, eu senti nojo no início por que não gosto de ficar me sujando de sangue, entende, mas enfim tudo isso se juntava ao pó que ia se acumulando sobre os móveis, meu deus, minhas narinas já não aguentavam, eu tinha alergia você lembra, eu tinha alergia e você fazia de conta que não era com você que eu falava quando me referia ao vaso, às flores, ao cão e ao pó da mobília, você se esquivava e se trancava no banheiro e ficava horas até que eu pegasse no sono, e eu adormecia no chão, encostado à porta do banheiro mesmo, tentando ouvir seus ruídos, mas não ouvia nada, era como se você soubesse que eu estava ali e evitava mover-se, e eu ficava no chão pensando que estava no meio do seu caminho, e adormecia ali com meu ouvido à porta até que você saía no meio da madrugada e pé por pé você ia se deitar e eu fazia que estava dormindo, mas eu não estava, por que eu sempre quis me manter acordado, desperto pra tudo que acontecia dentro desta casa, sempre estive cuidando para que tudo ficasse no lugar, mas teve um momento, não sei se foi antes ou depois do cão, que eu desisti por que você já não queria mais cuidar, nem do cão, nem das plantas, nem...sabe eu não quero mais alugar o teu ouvido com essa conversa chata, sim eu sei, estou ficando repetitivo, sempre falando no cão, nas flores, enfim, mas tem outras coisas também, um monte de outras coisas que vão se acumulando, coisas pequenas, claro, como trocar a água das flores, como tirar o pó, coisas bem pequenas, coisas que vão se acumulando como o pó, coisas que vão morrendo como essas flores murchas e liláses e mal cheirosas pela casa toda e esse assoalho corroído de cupins, e além disso já não se consegue ver direito a rua, os vidros da janela estão meio sujos, eu sei, e eu estou um pouco confuso por que não lembro se já havia lhe pedido pra comprar algum produto, alguma coisa, algum pano, qualquer coisa pra limpar um pouco tudo isso e que a gente pudesse pelo menos ver o lado de fora, ou ver a casa por dentro, do lado de fora, por que tá ficando escuro aqui dentro, meu deus, tá tudo ficando muito escuro e eu nem sei se ao cair da noite vai ter luz por que você nunca tem dinheiro pra pagar as contas, eu, sempre eu que tenho que dar um jeito nessas coisas, e ainda tem o cão que você deixou morrer, mas você não o enterrou, por que depois que você cuida por um tempo, você abandona em seguida, e você deixou o cão sozinho e agora ele tá lá e toda vez que eu olho pra ele naquele banheiro dos fundos, eu lembro do dia em que você o trouxe pra dentro de casa, você o trouxe nos braços como se você carregasse algo frágil e delicado, e era tão lindo ver você o carregando nos braços e ele lambendo seu rosto, meio agradecido, lembra, meu deus você não sente o cheiro, esse odor fétido se entranhando nas narinas, o cão tá apodrecendo no banheiro e nós não fazemos nada, eu não consigo entender como você não sente essas coisas, o cheiro, eu devo estar ficando louco eu acho, por que também não consigo pegar aquela coisa podre entende, não consigo jogar fora este vaso de flores murchas, não consigo soprar o pó para debaixo do tapete, não tem luz aqui dentro e eu não consigo ver a rua, sequer pela vidraça, tudo escuro e fechado e podre e essa náusea só de pensar em tudo isso e em muitas outras coisas que me embrulham o estômago, mas eu não quero falar nessas coisas agora por que, afinal, eu já estou cansado de ficar me repetindo e repetindo e repetindo e repetindo...como se eu estivesse falando sozinho, você me entende?

...

PS: Não tinha mais nada a escrever. Apertou o enter e publicou. Alguém haveria de ler. Um dia.

Fôlego

Special Photografers


Vou soprar

soprar

soprar

soprar

soprar

soprar

soprar

esta brasa que resta

Conteste pueril




Meu sobrinho:

Tio por que tu escreves sobre o amor em tempos tão rudes?

Eu:

Tu perguntaste a resposta

...

foto by Pablo Gonzalez



Fala-me outra vez sobre o nome das coisas

Sobre porquê as coisas têm o nome que têm

Fricção

desconheçoa autoria da imagem



Suave

repousar minha caligrafia

sobre a tua

ao me escrever em ti

ou a ti em mim

minha mão é nua

Vazante

Tu me escapas

assim

pelas frestas

do que me vazo a ti

de tudo

que de bom em mim

ainda resta

Hemisférios III

Nas coisas de amar

palavras atraiçoam


Dizem aos tropeços

à razão

do que o coração não pensa

Dizem

outra vez esta imagem de Wayne Forte, porque assim, aos pedaços


Já não mais a paciência verbal

amor prolixo


Desejo-nos

instantes

alguns silêncios

flutuação

Fiapos

foto by me (preparando telas para pintura)


Usaste a tesoura

O que tecido

sangrou no corte

à navalha

do fio que se estendia


PS: ao som de Njosnavelin (Sigur Ros)

Encruzilhadas

Na esquina

derretíamos

antes de saber

o sabor

lambido

do sorvete

Sábado, Março 04, 2006

Das naus recentes

imagem de http://lup51.blog.simplesnet.pt/



De pés descalços

em cada barco

remo

És porto

aceno

Estou de passagem

nau sem proa

navega minha âncora ferrugem

Alcantil

foto E.Rogério Salviani


Do que me diz respeito

é de como te jogas

é de como me jogo


O encontro?

Mera coincidência

Amálgama

fotografía Margarita Fuentes



Oscilo:

nado

ou me deixo afogar

embora possa eu

respirar

como o fazem

os peixes

quando em profundezas


PS: Prefiro escrever a dúvida, pois sangra. Sobre as certezas...ainda não estou bem certo.

Da mudez instaurada após a consumação do ato

desconheço a autoria da imagem


Calam na manhã derradeira

teus resquícios

embrulhados no lençol


E eu ansiava, ensaiava gestos

abrir janelas

Limites

desconheço a autoria da imagem


Haveria de ser

O que era

e estava


Mas este senão

que se interpõe

fronteira

do que haverá de ser

Nunca

sem ter sido

estado

Sexta-feira, Março 03, 2006

Confessional

imagem sem autoria



Não

Não sou poeta

Mas a todo instante

te penso

e ao dormir

te sonho

Pescaria

Sim

01 peixe

me fisgou

e eu

de anzol em punho

mordi sua isca


Hemisférios II



Norte
Peixe

nada

profundo

supondo o céu

seu refletido mundo

Sul
Girassol

lambe

acima

supondo mar

o céu de sua sina

Fogo



Minha chama

ao centro

é azul mar

água

da qual me faço ar

na fervura

São pontos




Abri meu peito

ao centro

criei espaço

em cirurgia

e cá te pus

suturei

em forma de peixe


Faz-me ar

de tuas guelras

Trilhos




Cortava

dúzias de cebolas

às 16h

no exato

do qual

em algum trem

partias

Ciclos




Minguei

como se não

o que sempre

sim

me é crescente

Nadadeiras (do que me ocorre ao encontrar um anjo)



Para Fe que em sonho a cor dado a mim de presente


Quando ris

se alegra

em mim

o quê de ti

me fez falta

e ao mar

de amor

adentro


PS: Anjo também é peixe

Sobre voar




Se alguma asa

de nós

quebrar na beira

nademos laços

de nosso impulso

for mar

alturas

Tempo (do que os segundos clamam)

foto by Margot

Ponteiros de nossas horas:

Agora

Sempre