Olha eu quero te dizer...bem o que eu quero dizer é que as flores do vaso já murcharam e eu cansei de trocar a água, queria dizer que, quando vc disser de fato o que eu preciso ouvir e quando eu deixar de querer ouvir o que você ainda não sente nececessidade de dizer, e quando você parar de me pedir que eu te diga aquelas palavras tão importantes que todo mundo deseja ouvir, mas que pra mim não faz a menor diferença ouvi-las, por que o que importa é que você esteja por perto, mesmo em silêncio, por que eu não sou o tipo de pessoa que usa essas palavras que todo mundo usa e necessitam ouvir, fico só pensando que você podia sim, de vez em quando trocar a água do vaso, as flores iam gostar e iam durar um pouco mais porque elas, assim, quero dizer, elas quando são cortadas, arrancadas de seus canteiros, elas precisam de um certo cuidado para que vivam um pouco mais, e não pode ser só um a cuidar porque, porque a gente nunca tem tempo e eu fico pensando que já não quero mais flores, nem cortadas nem vivas, dessas em vasos, com terra e tudo, por que se elas morrerem eu terei de lidar com esta coisa morta dentro de casa e não sei muito lidar com essas coisas, sabe, acho que vc sabe melhor do que eu porque foi assim com o cão que você trouxe pra dentro de casa, aquele lembra, que foi atropelado aqui em frente, o corpo dilacerado ao meio, lembro-me bem, você cuidou, você cuidou e era lindo ver que você ainda tinha muita disposição pra cuidar de alguma coisa que tinha uma chance, uma chance apenas de sobreviver, mesmo que essa coisa estivesse morrendo, mesmo que essa coisa estivesse morrendo em suas mãos, mas você chorava pelos cantos, eu lembro, e toda vez que eu lembro eu choro por que eu nunca quis ver você chorando, eu achava que você tinha de ser sempre forte, como aquele cãozinho que você trouxe dilacerado e me entregou nos braços, eu senti nojo no início por que não gosto de ficar me sujando de sangue, entende, mas enfim tudo isso se juntava ao pó que ia se acumulando sobre os móveis, meu deus, minhas narinas já não aguentavam, eu tinha alergia você lembra, eu tinha alergia e você fazia de conta que não era com você que eu falava quando me referia ao vaso, às flores, ao cão e ao pó da mobília, você se esquivava e se trancava no banheiro e ficava horas até que eu pegasse no sono, e eu adormecia no chão, encostado à porta do banheiro mesmo, tentando ouvir seus ruídos, mas não ouvia nada, era como se você soubesse que eu estava ali e evitava mover-se, e eu ficava no chão pensando que estava no meio do seu caminho, e adormecia ali com meu ouvido à porta até que você saía no meio da madrugada e pé por pé você ia se deitar e eu fazia que estava dormindo, mas eu não estava, por que eu sempre quis me manter acordado, desperto pra tudo que acontecia dentro desta casa, sempre estive cuidando para que tudo ficasse no lugar, mas teve um momento, não sei se foi antes ou depois do cão, que eu desisti por que você já não queria mais cuidar, nem do cão, nem das plantas, nem...sabe eu não quero mais alugar o teu ouvido com essa conversa chata, sim eu sei, estou ficando repetitivo, sempre falando no cão, nas flores, enfim, mas tem outras coisas também, um monte de outras coisas que vão se acumulando, coisas pequenas, claro, como trocar a água das flores, como tirar o pó, coisas bem pequenas, coisas que vão se acumulando como o pó, coisas que vão morrendo como essas flores murchas e liláses e mal cheirosas pela casa toda e esse assoalho corroído de cupins, e além disso já não se consegue ver direito a rua, os vidros da janela estão meio sujos, eu sei, e eu estou um pouco confuso por que não lembro se já havia lhe pedido pra comprar algum produto, alguma coisa, algum pano, qualquer coisa pra limpar um pouco tudo isso e que a gente pudesse pelo menos ver o lado de fora, ou ver a casa por dentro, do lado de fora, por que tá ficando escuro aqui dentro, meu deus, tá tudo ficando muito escuro e eu nem sei se ao cair da noite vai ter luz por que você nunca tem dinheiro pra pagar as contas, eu, sempre eu que tenho que dar um jeito nessas coisas, e ainda tem o cão que você deixou morrer, mas você não o enterrou, por que depois que você cuida por um tempo, você abandona em seguida, e você deixou o cão sozinho e agora ele tá lá e toda vez que eu olho pra ele naquele banheiro dos fundos, eu lembro do dia em que você o trouxe pra dentro de casa, você o trouxe nos braços como se você carregasse algo frágil e delicado, e era tão lindo ver você o carregando nos braços e ele lambendo seu rosto, meio agradecido, lembra, meu deus você não sente o cheiro, esse odor fétido se entranhando nas narinas, o cão tá apodrecendo no banheiro e nós não fazemos nada, eu não consigo entender como você não sente essas coisas, o cheiro, eu devo estar ficando louco eu acho, por que também não consigo pegar aquela coisa podre entende, não consigo jogar fora este vaso de flores murchas, não consigo soprar o pó para debaixo do tapete, não tem luz aqui dentro e eu não consigo ver a rua, sequer pela vidraça, tudo escuro e fechado e podre e essa náusea só de pensar em tudo isso e em muitas outras coisas que me embrulham o estômago, mas eu não quero falar nessas coisas agora por que, afinal, eu já estou cansado de ficar me repetindo e repetindo e repetindo e repetindo...como se eu estivesse falando sozinho, você me entende?
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PS: Não tinha mais nada a escrever. Apertou o enter e publicou. Alguém haveria de ler. Um dia.