Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Para desconstruir...


Tantas florestas...

Tantas florestas arrancadas da terra
e massacradas
arrasadas
rotativadas

Tantas florestas sacrificadas para virar pasta de papel
milhares de jornais chamando anualmente a atenção dos leitores para os perigos do desmatamento dos bosques e das florestas.

Jacques Prévert

Parênteses na província


Caros leitores, hoje permito-me abrir parênteses para comentar um show a que assisti ontem. Todos somos sabedores de que vivemos num momento caótico no qual a sociedade do espetáculo ganha espaços significativos na vida cultural e política. Ontem (29) presenciamos mais uma prova disto. Aconteceu nas dependências da Casa Firmino Torelly a Pré-Conferência Municipal de Cultura. Segundo o regulamento do MINC, que realizará a 1a. Conferência Nacional de Cultura, Porto Alegre teria direito a incluir na Conferência Estadual, que acontece hoje (30)no CCEV, 10 delegados + dois indicados pela SMC. O que se viu foi um espetáculo no qual a Cultura ficou de fora para dar espaço aos articulistas políticos que se fizeram presentes em caravana para garantir suas vagas. Em anos de um processo cultural tão significativo que vem ocorrendo na Cidade, como apontaram alguns, supunha que já tínhamos atingido um certo grau de civilidade no trato com questões que envolvem discernimento e clareza.

Impressionou-me a disputa das vagas, não por aqueles que fazem, produzem e pensam a Cultura na Cidade, mas por aqueles que tratam-na como instrumento político na ânsia de angariar votos e asseclas. Também foi possível constatar que determinadas áreas da Cultura estão esfaceladas frente a determinados grupos que entendem a Cultura apenas as manifestações de massa, em detrimento daquelas que promovem a produção de objeto de arte no sentido de promover reflexão.

Acompanhamos estarrecidos a disputa pelos candidatos a delegados ao microfone, para marcarem suas presenças frente a uma platéia de 30% de artistas, 20% de CCs e funcionários, e outros 50% de ativistas políticos organizados em assegurarem as plataformas políticas de seus candidatos eleitos à vereança no último pleito. Surpreendeu-me ainda ver que em anos de um processo cultural tão significativo, as Artes Cênicas, a Literatura e a Dança (tratada como uma área a aprte das Artes Cênicas) estão fragmentadas. Foi possível perceber que nos últimos anos a política cultural permeou as Culturas de Massa e que conseguiu sim, organizá-las de modo a deslocarem-se em grupo para assegurar suas vagas na tal Conferência como tem sido há anos.

A definição dos procedimentos para a votação dos delegados foi caótica, desorganizada e vergonhosa para nós que trabalhamos pelo esclarecimento, pela democratização da leitura e na produção de Artes Cênicas. Não foi tirada nenhuma proposta, não houve tempo. Hoje (30) os delegados estão nos representando sem qaisquer propostas em favor de todos. Provavelmente estejam defendo mais verbas para o Carnaval, para os terreiros de Umbanda e outros. A cena na Casa Torelly foi tomada não pelos artistas, que seriam as pessoas indicadas a votar, já que são eles/nós que carregamos os cenários nas costas para levar um pouco de cultura a determinadas comunidades. A cena foi tomada por uma outra espécie de artista que vêm proliferando consideravelmente desde que os políticos visualizaram na Arte um patamar eleitoreiro. A maioria dos delegados eleitos são figurinhas carimbadas, sementes plantadas que estão em todas as reuniões, assembléias, temáticas, conferências e o raio que o parta, sentados discutindo sobre o futuro...sobre o futuro do trabalho que nós, artistas, realizamos. Enquanto, é claro, nós corremos de um lado pro outro atrás de apoios e financiamentos para continuar nosso trabalho e sobreviver na tentiva de levar um pouco de luz para algumas cabeças imersas na mediocridade e ignorância.

A respeito dos 10 delegados eleitos buscamos informações consistentes sobre o quê haviam feito em suas respectivas áreas na produção de cultura, de arte ou reflexão. Fomos em busca de informações que fossem relevantes, que indicassem claramente seus envolvimentos na construção de uma política cultural transversal e diversa, que indicasse seus propósitos e diálogos no âmbito do fazer artístico. Uma busca em vão. Encontramos, sim, nomes de pessoas que lutam por suas respectivas áreas e, a maioria, áreas que envolvem grandes grupos (Carnaval, Capoeira,Consciência Negra, Manifestações Populares - amplo este termo, não acham?). Grandes grupos são focos eleitoreiros em potencial, não é mesmo?

O que percebemos na noite passada foi uma disputa política e mais uma vez a Cultura, que deveria ter sido o objeto principal de discussão para formatação de propostas consistentes que demonstrassem ao país que Porto Alegre faz diferença quando se trata disto, ficou relegada às disputas de braços de ferro, bandeirolas e panfletagem (só faltou a distribuição de santinhos). Os políticos que se fizeram presentes saíram antes da votação, como é costume: fazem suas aparições (afinal, aquilo é um espetáculo) e somem, omitindo-se de votar e se posicionar frente a todos. Na platéia, vários adolescentes que sequer, suponho eu, tenham pego um livro nas mãos para ler, ou sequer ouviram falar da maioria daqueles candidatos a delegados - Aliás, havia um número significativo de produtores que realmente FAZEM, mas infelizmente estes não foram eleitos ou votaram em seus parceiros de área. O quorum para tanto era pequeno, somos uma classe desarticulada, “umbigóide” (nem sei se o termo existe, mas como sou metido a poeta permito-me inventar)- Adolescentes reunidos levantando seus braços para votar naqueles velhos conhecidos da comunidade, aqueles que vivem por lá sugerindo modos de viver e formas de pensar mais espreguiçadas no comodismo e na inércia. Ficamos disputando candidaturas num circo armado sem lona e sem estaca.

Pergunto então... Se o processo cultural se renovou ao longo dos anos, para que fins exatamente os mecanismos culturais foram acionados nas plataformas políticas? Respondo: VOTO! Nada mais do que isso.

E ainda queremos que algo mude neste país. Ah! Tenham a santa paciência...aí seria pedir demais...

Domingo, Novembro 27, 2005

A grande encenação

Vivemos na sociedade do espetáculo. Tudo é espetáculo e, cada vez mais, os artistas estão ficando sem palco. Os políticos são melhores atores. As empresas ligadas à mídia, os melhores produtores. Os recursos, o que é melhor para eles, é do nosso bolso. As platéias que se debruçam nos eventos que não deixam nada de atitude concreta, são os melhores espectadores. Estamos vivendo em um grande palco e a encenação é sempre a mesma. Tudo em prol de vender uma imagem. Uma falsa imagem. To de saco cheio!

Sábado, Novembro 26, 2005



Peguei! Peguei uma palavra destas que ficam por aí, soltando a imaginação... Posted by Picasa

Sexta-feira, Novembro 25, 2005

O início


Ontem nem entrei na rede...estava desolado e resolvi sair. Tomei um chopp sozinho e fui ao cinema assistir O Jardineiro Fiel, direção do Fernando Meirelles, que dirigiu Cidade de Deus. Com Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Muito bom, embora seja um soco no estômago devido às sacanagens que fazem ao redor do mundo usando pessoas indefesas como cobaias para testes de novos remédios. Saí mais pra baixo de como cheguei.

Dormi mal. Acordei na madrugada e não consegui voltar a dormir. Acho que um pouco de preocupação e insatisfação com as falcatruas que o mundo oculta, enfim, coisa de gente sem escrúpulos mesmo.

Também fiquei muito tocado ontem com um trabalho que fiz em uma escola municipal, na qualidade de escritor, integrando o Programa Adote um Escritor, da Câmara Rio-Grandense do Livro e SMED. Um menino ficou grudado comigo o tempo todo, cheio de atenções, me condizindo a aprciar os trabalhos produzidos a partir da leitura de meus livros. Ele tem 4 anos e se chama Denilson. Em um dado momento me chamou de pai. Engoli em seco, pois penso em adotar uma criança há uns 3 anos...

Contei uma história para as crianças da escola. Uma história que escolhi ao acaso entre as histórias que gosto e que tem um lugar especial na estante da sala. A história de autoria de Marta Neves chama-se Um outro pôr-de-sol. É sobre um menino que vendia maçãs. Ele não tinha pai nem mãe, mas tinha um sonho: viajar para bem longe, para ver o pôr-de-sol do outro lado do mundo. Ele sai pelo mundo em busca de seu sonho, faz amigos, conhece lugares, volta ao ponto de partida e percebe que se ele mesmo pode fazer um outro pôr-de sol, do jeitinho que ele quiser.

Ao retornar para casa, após a atividade, enquanto a diretora conduzia me contou que aquele menino que ficou agarrado comigo fora afastado dos pais pelo Ministério Público e que, atualmente vivia numa Fundação que abriga crianças "órfãs". Senti vontade de cuidar dele, mas me acho muito egoísta, não sei. Não sei se seria possível. Talvez eu o apadrinhe (ou o "adote", quem sabe)... Depois fui ao cinema. Incrível as coincidências que o mundo provoca! Há uma cena no filme em que a esposa de um diplomata reside na África e descobre uma grande sacanagem envolvendo um laboratório e milhões de dólares. Ela sai do hospital (foi parir e perdeu o bebê) então, de dentro do carro, ela vê a mãe de uma menina que acabou de parir e a quem ela amamentou no hospital. A mulher caminhando nas ruas sujas e abarrotadas de gente em algum lugar da África carrega o neto no colo. Tessa, a esposa do diplomata, dentro de um carro confortável, sabe que eles moram a 40Km dali e que irão a pé para casa. Ela então, pede ao marido que lhes dê carona. Ele diz: não podemos interferir na vida deles, não podemos nos responsabilizar por tudo que há de errado no mundo...enfim...

Hoje to correndo com as telas que tenho que apresentar para a seleção de uma Mostra do Atelier onde estudo. O sorriso e o abraço que o Denilson me deu, sua mão estendida através do arame da cerca durante a despedida não me saem da cabeça. Acho que ele precisa de mim...ou eu preciso dele...não sei. Queria fazer algo, mas fico pensando no meu tempo, nas minhas coisas, em tudo que eu teria de restringir...minha liberdade. To encucado. Sei lá! Quem sabe o desejo que há anos alimento não se concretiza de fato e, em vez de eu ser adotado eu adote alguém...

No meio disso tudo to dando uns retoques, tentando concluir aquela tela que produzi em Floripa. Acho que tudo isso, essas sensações, vão nas tintas, de alguma forma. To ouvindo Fernanda Porto cantando Eletricidade: "Hoje, com aquele espanto da primeira dor/Acordei chorando/Rodando o apartamento/Uma entrevista de Godard na mão/...".

Por enquanto é isso...voltarei aos pincéis (deixei um volume de tinta secando para sobrepor outras cores) talvez esconder, camuflar minha covardia.